PM matou vítimas já rendidas, dizem testemunhas

Segundo versão oficial, dois rapazes disparam contra policiais em motos. Fugitivos, porém, teriam recebido tiros na cabeça após cair

O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2012 | 03h11

Testemunhas afirmaram que os dois rapazes mortos pela Polícia Militar em Embu das Artes, na Grande São Paulo, foram executados quando já estavam rendidos. A versão oficial da corporação é a de que os dois suspeitos atiraram contra os agentes das Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas (Rocam).

O Comando da PM informou que todos os casos de resistência à prisão seguida de morte resultam na abertura de inquérito para apurar eventuais abusos dos policiais. Esses casos são investigados pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil.

A PM também informou que recebeu uma denúncia de que os dois homens estavam roubando pedestres. Os soldados deram voz de prisão à dupla, que não parou e atirou contra os PMs.

Os fugitivos caíram da moto na Rua Babilônia. Rodrigo Neves de Oliveira, de 20 anos, morreu no local. "Os policiais viram que ele estava caído e deram vários tiros na cara", disse um rapaz que mora perto do local do confronto. André Felipe Oliveira Lima, de 16, foi encaminhado ao hospital, mas não resistiu.

A polícia disse que apreendeu com a dupla dois revólveres, calibres 32 e 38, e uma bolsa, pertencente a uma mulher assaltada minutos antes. No bairro, ambos eram conhecidos como "ladrões pés de chinelo".

Segundo as testemunhas, várias viaturas foram ao local e proibiram a população de ficar na rua, batendo nos que se recusavam a sair.

Execuções. Familiares e amigos das vítimas das outras pessoas assassinadas durante a madrugada de ontem dão como certo de que as mortes foram praticadas por policiais. "A polícia está matando e não está matando só bandido. Estão indo na rua e matando qualquer um que eles encontram pela frente", afirmou um rapaz, amigo de Fabio Julião Santos, de 32 anos, e José Francisco Gomes, de 31, assassinados ontem.

A sobrinha de Ricardo Evangelista Pereira, de 31 anos, disse que ele não tinha nenhuma relação com o crime. "Ele estava na frente de casa conversando e não teve nenhuma chance de se defender", afirmou.

Colegas de batalhão do soldado Hélio Miguel Gomes de Barros, morto em Taboão da Serra, disseram também acreditar que a morte do PM tenha sido uma ação do crime para vingar outros casos de resistência seguida de morte. "Tivemos vários casos de resistência neste ano. Todos de criminosos. Foi um contra-ataque dessa guerra urbana", disse um PM no enterro do colega.

Respostas. O comandante-geral da PM, Roberval França, disse ontem em entrevista à rádio Estadão/ESPN que a sequência de mortes ocorridas na Grande São Paulo poderia ser uma resposta de policiais à morte do soldado de Taboão da Serra. "Ainda não é possível estabelecer conexões. São várias linhas de investigação: disputa por pontos de tráfico de drogas, reação à morte do policial", disse.

Sem dar detalhes, o comandante disse que o policiamento no Estado receberá "reforço".

O delegado Marco Antônio Dario, do DHPP, encarregado de todos os casos, também informou que as investigações estão no início e não seria possível estabelecer ligação direta entre os casos. Dario disse, no entanto, que a morte do policial Barros e as mortes de Oliveira e Lima, em Embu, ocorreram em horários muito próximos um do outro e, a princípio, não tinham nenhuma conexão. / ARTUR RODRIGUES e BRUNO RIBEIRO

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