NILTON FUKUDA/ESTADAO
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PMs e guardas-civis atiram 15 vezes; universitário morre

Agentes alegaram que motorista teria atirado em 2 oportunidades; delegada constatou 17 buracos em carro, só 1 de dentro para fora

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2016 | 08h33

SÃO PAULO - Policiais militares e guardas-civis se envolveram em mais uma ação com morte em São Paulo, na madrugada desta terça-feira, 28. Segundo depoimentos, eles deram pelo menos 15 tiros contra o carro dirigido pelo universitário Julio Cesar Alvez Espinoza, de 24 anos. A alegação dos agentes é de que, além de não respeitar a ordem de parada, o motorista teria atirado contra eles. A perícia feita no carro encontrou buracos equivalentes a 17 disparos – um apenas de saída, mas sem detalhar se foi de um disparo feito de dentro para fora ou de um projétil que varou o automóvel.

A perseguição acabou na Rua Guamiranga, na Vila Prudente, zona leste da capital. Após levar um tiro na cabeça, Espinoza, que era estudante de Logística na Uninove, chegou a ser levado ainda com vida para o Hospital Estadual Vila Alpina, onde morreu. De acordo com o boletim de ocorrência registrado no 56.º DP, Espinoza foi baleado depois de fugir de dez policiais militares e quatro guardas-civis e bater na cancela de uma empresa. Na perseguição, os agentes admitiram ter atirado 15 vezes – 7 disparos foram de civis. 

Os PMs alegaram que o jovem teria disparado diversas vezes contra as viaturas ao longo do trajeto e disseram ter encontrado um revólver calibre 38 em seu veículo, 3 cartuchos carregados, 3 vazios e 2 pacotes com “substância branca aparentando entorpecente”.

O caso foi registrado como “homicídio decorrente de oposição à intervenção policial” e no BO dois policiais e dois guardas aparecem como vítimas. O jovem que morreu não tinha antecedentes criminais. A Polícia Civil instaurou inquérito, encaminhado para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Os PMs envolvidos foram colocados no programa de acompanhamento psicológico e terão a conduta examinada por inquérito policial militar. A ocorrência também será acompanhada pela Corregedoria. 

Ipiranga. Os PMs Vinicios Mendes Caramori e Carlos Roberto da Silva disseram ter encontrado Espinoza “rondando” com um veículo Gol prata nas imediações do bairro do Ipiranga, zona sul da capital, por volta das 3 horas. Foi quando pediram que ele parasse. Ao perceber o sinal da viatura, o jovem teria começado a fugir na direção da Avenida Wilson, na Mooca, e depois para São Caetano do Sul, passando pela Avenida Guido Aliberti. O estudante teria atingido 120 km por hora durante a fuga, segundo relato dos policiais. 

Ao perdê-lo de vista, os agentes pediram ajuda da Guarda Civil Municipal (GCM) de São Caetano, que tentou bloquear a passagem do rapaz. Ele continuou fugindo, até colidir com um muro na Avenida do Estado. 

Neste momento, um dos policiais disse ter dado quatro tiros e os guardas, mais sete disparos na direção dos pneus. Mesmo assim, o jovem conseguiu fugir pela avenida. Duas viaturas, ao tentar fazer o retorno para persegui-lo, teriam se chocado. 

Quando o estudante perdeu o controle e bateu o veículo na cancela da empresa, já de volta à zona leste da capital paulista, a viatura mais próxima, com os PMs Eduardo Correa Barbosa e Amanda Grazielle Dias Nunes, tentou abordá-lo, mas os policiais disseram ter visto “um clarão e estampidos de arma de fogo vindos do interior do Gol”. Foi quando revidaram com quatro tiros e um deles acertou Espinoza. O jovem foi encaminhado ainda com vida para o hospital, mas teve morte encefálica.

Na vistoria no veículo, a delegada Silvia Cordeiro Mendanha informou ter encontrado 17 buracos feitos “provavelmente por armas de fogo”. Um deles teria saído de dentro do carro.

Família. Ao Estado, o pai do rapaz, Julio Ugarte, disse estar indignado com a versão dos policiais. “É tudo invenção. Não conseguiram pegar o menino, deram um monte de tiros e tiveram de justificar.” Segundo ele, Espinosa nunca usou drogas.

O pai admitiu que o rapaz até já teria fugido da polícia, porque o carro não estava 100% regular, mas disse que, naquele dia, estava voltando de um bico que fazia em um bufê em São Caetano do Sul. “O carro estava com seis multas de rodízio. Ele estava fazendo esse bico para pagar as multas. É um absurdo. O menino era estudioso, tinha boas notas, pensava no futuro. Nunca se envolveu com coisa errada.”

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