PM encontra em Paraisópolis lista de 40 policiais marcados para morrer

Papéis achados em Paraisópolis incluem descrição física e endereços de vítimas, detalhes de como funcionam tribunais do crime e organograma do PCC

ARTUR RODRIGUES , MARCELO GODOY, WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2012 | 02h03

A Polícia Militar estourou uma central de espionagem do Primeiro Comando da Capital (PCC) na Favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, onde eram planejados ataques contra policiais do Estado. Foi encontrada uma mala cheia de anotações feitas por bandidos da quadrilha de Francisco Antônio Cesário da Silva, o Piauí. Em cadernos com páginas preenchidas à mão, havia nomes, endereços e características físicas de policiais civis e militares marcados para morrer.

A lista de policiais que deveriam ser assassinados tinha pelo menos 40 nomes de homens que atuam em todo o Estado. Documentos revelam que os criminosos seguiam os policiais por tempo suficiente para saber tudo sobre sua rotina. O nível de detalhamento era tão grande que os criminosos sabiam até o percurso feito por policiais do trabalho para casa e os locais onde passavam seus momentos de lazer, como no caso de um sargento que gostava de assistir a jogos de futebol em um bar. A documentação também inclui penas aplicadas contra bandidos que não praticaram as ações determinadas pela facção contra as forças de segurança do Estado.

Pela primeira vez, foram encontrados indícios de que a organização criminosa pretendia atacar policiais civis. Nomes de dois homens do Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra) constavam da lista.

Os homens do 16.º Batalhão da PM descobriram os documentos do PCC na Avenida Independência, após monitorarem dois adolescentes no bairro. Depois que a polícia cercou a favela, traficantes tentaram usar os gêmeos de 17 anos para retirar os dados da facção de Paraisópolis. O material foi entregue à dupla pelo zelador do prédio onde funcionava a central de espionagem do PCC. Os adolescentes, porém, acabaram flagrados com todos os documentos dentro de uma mala de viagem com rodinhas. Se não fossem pegos, eles tentariam de sair da favela tomada por mais de 600 policiais. No local, ocorre desde anteontem a Operação Saturação. Todas as saídas de Paraisópolis estão fechadas pela PM desde as 5h de segunda-feira.

Contabilidade. Na mala, também foi encontrada movimentação financeira do tráfico de drogas na região. Além de dados da organização criminosa em nível nacional. Eles revelam a atuação de Piauí em Minas Gerais e em Mato Grosso do Sul.

A PM ainda encontrou na mala um organograma do PCC. E o documento que prova que saiu de Paraisópolis a ordem para matar PMs - o "salve", como é chamado entre os criminosos. No papel está escrito que, para cada criminoso morto, dois policiais devem morrer. O motivo da ordem seriam as "execuções covardes" de criminosos supostamente cometidas por policiais militares.

A central também funcionava como uma espécie de fórum do crime. Ali, havia detalhes de todos os processos do chamado tribunal do PCC. A documentação incluía o nome dos responsáveis por conduzir os julgamentos (disciplinas), as testemunhas e as sentenças aplicadas aos réus. Em um dos casos, por exemplo, a sentença para um rapaz que furtou dois tênis foi ressarci-los à vítima.

Além disso, foram achados documentos que comprovam que o PCC pagava pensão às famílias de pessoas mortas durante os ataques da facção em 2006. Os familiares tinham de assinar uma folha atestando o recebimento da cesta básica - ainda não se sabe se o pagamento era em dinheiro ou produtos.

Prisão. Na manhã de ontem, a polícia prendeu mais um integrante da facção criminosa. Tratava-se de um acusado de roubos a residência no Morumbi, bairro vizinho da favela. Com ele, os policiais encontraram um fuzil M-16.

Desde janeiro, 86 PMs foram mortos no Estado. Segundo o comandante-geral da PM, coronel Roberval França, 37 casos têm características de execução. Até ontem, 20 bandidos acusados dos ataques foram mortos pela PM e 129, presos. Há 20 foragidos.

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