PM encerra remoção no Pinheirinho e famílias já ocupam área de risco

Moradores retirados do assentamento em São José dos Campos vão para imóveis condenados pela prefeitura há um ano

WILLIAM CARDOSO , ENVIADO ESPECIAL , SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2012 | 03h03

O processo de reintegração de posse na comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos, foi concluído e ontem mesmo um grupo de moradores que viviam no local já buscava abrigo em casas interditadas pela prefeitura da cidade no bairro Rio Comprido, vizinho da Rodovia Presidente Dutra. Os imóveis foram condenados em janeiro de 2011, depois que um deslizamento matou cinco pessoas.

"Estamos exaustos, mas felizes, porque não houve vítimas no confronto com a PM", afirmou o coronel Manuel Messias. A PM deixou de fazer a segurança do terreno na noite de ontem. Com isso, várias pessoas invadiram o local para "garimpar" os escombros dos barracos e levaram até galinhas das ruínas. Uma retroescavadeira de R$ 300 mil que foi usada na derrubada dos barracos foi incendiada. Segundo o coronel, porém, não há previsão de saída dos PMs da área, só da parte do efetivo que protegia o terreno. "Vamos manter um policiamento forte em toda a região."

O assessor da presidência do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), Rodrigo Capez, elogiou o trabalho da polícia na remoção das famílias. "(A operação) foi bem planejada e bem executada", disse. "Para aqueles que imaginavam um novo Eldorado dos Carajás (confronto entre policiais e sem-terra no Pará, que deixou 19 mortos em 1996), essa ação limpa demonstrou que os temores eram infundados."

Desde domingo, quando foi realizada a reintegração de posse do terreno, 14 pessoas foram presas. Os manifestantes queimaram 14 veículos.

Casas condenadas. As novas casas de pelo menos dez famílias do Pinheirinho ficam a 7 quilômetros do terreno que foi alvo de ação policial de desocupação, no domingo.

A costureira Elza Maria Macena da Silveira, de 47 anos, viveu por oito anos no Pinheirinho. Desde domingo, quando teve de sair de casa, estava abrigada na Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Campo dos Alemães, sem condições de higiene nem privacidade.

Ontem, reuniu os bens em um caminhão e desembarcou no Rio Comprido. "Um rapaz que morou nesse bairro e foi obrigado a sair avisou a gente sobre a possibilidade de ficar aqui. A gente tinha de fazer alguma coisa, não dá para ficar na rua."

A moradora sente falta mesmo é da antiga casa, deixada para trás após a operação policial. "No Pinheirinho era melhor porque eu tinha a minha casa, aquela que eu mesma construí, do meu jeito." Ela vai viver provisoriamente na nova ocupação com o companheiro e tenta convencer a filha, o genro e o neto a se mudarem para lá.

Filha de Elza, a dona de casa Andressa da Silveira, de 25 anos, seguiu para o abrigo no Ginásio do Morumbi com o grupo de desalojados do Pinheirinho e estava em dúvida se viveria no Rio Comprido. "Aqui (no ginásio) está terrível, com muito calor e bastante apertado. Mas tenho medo de ir para onde está a minha mãe e ser acuada pela PM de novo. Não quero isso."

O pensionista Severino João Bezerra, de 43 anos, acompanha Elza desde o Pinheirinho e espera passar pouco tempo na área interditada. "Será por uns três meses só, é provisório, porque em abrigo não dá para ficar, nem na rua", explicou. Ele diz não ter medo de morar na casa interditada, cheia de rachaduras, sem portas nem janelas, à beira de um barranco, na Avenida Um.

No fim da tarde de ontem, caminhões formavam fila para desembarcar os novos moradores da área condenada pela prefeitura. A maioria alega que não tem onde ficar e que busca algum tipo de conforto entre os escombros dos imóveis abandonados do Rio Comprido.

Nova desocupação. A prefeitura de São José dos Campos disse que já existe uma ação de desocupação na área de risco tramitando na 1.ª Vara da Fazenda Pública. A administração municipal afirmou também que a área tinha sido invadida havia mais de 40 anos.

Ao longo do ano passado, a prefeitura retirou as pessoas que viviam lá. Os novos moradores serão incluídos nesta ação e deverão ser removidos também. Ainda não há uma data para a desocupação.

Imbróglio. A área de 1,3 milhão de metros quadrados do Pinheirinho era ocupada ilegalmente desde fevereiro de 2004. O terreno pertence à massa falida da empresa Selecta, do investidor Naji Nahas. A operação de reintegração foi precedida por decisões desencontradas da Justiça federal e da Justiça do Estado.

Na sexta-feira, o Tribunal Regional Federal da 3.ª Região havia suspendido a ação, mas a operação seguiu adiante por ordem da 6.ª Vara Cível. Um manifestante ficou ferido.

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