PM despeja sem-teto de invasão à beira de rodovia em Campinas

Grupo não quer ir para abrigo e montou acampamento no prédio da prefeitura de Campinas

Ricardo Brandt,

17 Janeiro 2013 | 19h04

CAMPINAS - Um grupo de sem-teto acampou nesta quinta,feira, 17, no prédio da prefeitura de Campinas, no interior de São Paulo, após serem despejados da área onde viviam, desde outubro do ano passado, às margens do Anel Viário Magalhães Teixeira. A Polícia Militar cumpriu pela manhã mandato de reintegração de posse do terreno que era ocupado por 42 duas famílias. Cerca de 130 policiais participaram da desocupação, que foi pacífica.

Os sem-teto afirmam não ter onde morar e decidiram não aceitar a proposta feita pela prefeitura de Campinas de irem para um abrigo para moradores de ruas. "Não aceitamos ir para um abrigo de viciados e moradores de rua. Somos famílias com crianças. Vamos até a prefeitura e vamos acampar por lá e ficar até que o prefeito Jonas Donizette dê uma solução para o problema", afirmou Lucas Hernani, de 33 anos, um dos coordenadores do Residencial Nova Aliança - nome dado à invasão.

O terreno, às margens do anel viário, que liga as rodovias Anhanguera e D. Pedro I, é particular e a Justiça determinou em novembro do ano passado que os invasores fossem retirados do local. Com ajuda do helicóptero Águia, oficiais da cavalaria e do canil, os policiais ocuparam o terreno por volta das 9h. Os barracos começaram a ser derrubados com a ajuda de um trator.

Alguns integrantes da invasão atearam fogo em barracos. Na terça-feira, 15, os sem-teto fizeram um protesto contra a reintegração de posse. Eles fecharam os dois sentidos do anel viário com uma barricada de pneus e atearam fogo.

Para evitar que a pista fosse novamente ocupada, um cordão de isolamento com policiais foi montado pela PM às margens da rodovia. A Concessionária Rota das Bandeiras, que administra a rodovia, registrou lentidão de três quilômetros no trecho, por causa do fechamento de uma das pistas, mas sem congestionamento.

Segundo o porta-voz da PM, coronel Marci Elber, a operação ocorreu sem problemas, apesar de alguns incidentes e provocações. Além do incêndio nos barracos, os sem-teto ameaçavam resistir e chegaram a montar uma barreira para impedir a entra da polícia. Houve também bate-boca com os oficiais de Justiça e os representantes dos proprietários do terreno, que acompanharam a desocupação.

Protesto

Após a desocupação, os sem-teto - ligados ao Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD) - fizeram um protesto em frente a prefeitura e fecharam as duas pistas da avenida, provocando congestionamento e confusão no trânsito, no final da tarde.

No saguão do Paço Municipal, os sem-teto montaram barracas e afirmam que vão dormir no local até que seja solucionado o problema. A Secretaria de Habitação cadastrou os invasores, mas a maior parte deles diz já fazer parte da lista de pessoas sem moradia há anos.

"Há 12 anos faço parte do cadastro da prefeitura de famílias que aguardam por moradia em Campinas. Somos em seis pessoas em casa e não temos para onde ir, desde que saímos da casa onde morávamos, em uma área de risco da cidade", conta Adriana Silva, de 41 anos, enquanto toma conta dos pertences retirados de seu barraco, antes dele ser posto no chão por uma retroescavadeira.

"Nós vamos ter que voltar a morar de aluguel. Estou sem emprego, vivendo apenas de bicos", conta Claiton Lopes, de 26 anos, que morava em um barraco com a mulher Roberta e os filhos Samuel, de 2 anos, e Wallace, de apenas seis meses, que nasceu no acampamento.

O secretário de Relações Institucionais, Wanderlei de Almeida, responsável pelas negociações com os sem-teto, afirmou que havia uma reunião agendada para essa sexta-feira, 18, que foi antecipada para ontem, mas acabou sendo cancelada, após os protestos.

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