PM dá 7 golpes de cassetete em homem

Comando afirma que vai apurar caso, classificado como 'atitude isolada'; remoção de pertences de moradores termina amanhã

O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2012 | 03h04

Um vídeo amador gravado por moradores do Pinheirinho no centro de triagem montado pela prefeitura de São José dos Campos mostra um homem sendo agredido por policiais militares. As imagens foram postadas na internet ontem, mas teriam sido feitas no domingo, quando o Batalhão de Choque cumpriu o mandado de reintegração de posse do terreno de 1,3 milhão de metros quadrados para a retirada dos moradores do local. A Polícia Militar diz que ação é isolada e que vai apurar o caso.

Nas imagens, que duram cerca de um minuto, é possível ver cinco policiais militares de capacetes e cassetetes em mãos caminhando por um campo enlameado onde estão montadas tendas para atender os desalojados. Os PMs seguem na direção de um homem que, ao vê-los, coloca as mãos para cima. Começa então uma sequência de agressões. Os policiais cercam o homem perto de uma tenda. Um militar agride a vítima com, no mínimo, sete golpes de cassetetes.

Gritos e pedidos de socorro são feitos por moradores. "Tem criança aqui. Você está louco?", diz uma mulher, aos berros. "Covarde!", grita um homem. Um morador que filma a cena afirma para as pessoas que estão por perto que ele registrara as imagens da agressão policial. "Filmei! Está tudo filmado aqui."

Os moradores indignados afirmaram que o homem fora agredido gratuitamente. "Que isso?! Ele foi agredido por nada. O cara não fez nada", ouve-se uma mulher dizer ao fundo. O homem agredido consegue, então, escapar do cerco policial.

Após a agressão, os PMs seguem pelo campo e ignoram os apelos e as críticas feitas pelos moradores do Pinheirinho.

Ontem, o Comando de Policiamento do Interior 1 da Polícia Militar divulgou nota sobre a ocorrência. A PM informou que o comportamento registrado pelo vídeo é "isolado". "O fato será devidamente apurado. A PM não compactua com essa atitude isolada", acrescentou a nota.

Resgate de bens. Ontem, foi com surpresa e decepção que parte dos moradores do Pinheirinho enfrentou o retorno às casas que deixaram às pressas no domingo. Desaparecimento e destruição dos bens e dificuldade para retirar o que lhes pertence foram situações relatadas. Até ontem, 40% dos imóveis já haviam sido demolidos. Mais um veículo foi incendiado.

"Não deixaram tirar minhas coisas. Está tudo lá. Isso não foi só comigo, não. Estava ouvindo boato lá fora e não estava acreditando. Agora, acredito. Etiquetaram tudo para nada, metade das minhas coisas está arregaçada", afirmou, aos prantos, a faxineira Ana Paula da Conceição, de 23 anos, mãe de duas crianças, de 5 anos e de 1 ano e 8 meses.

As ruas próximas do Pinheirinho estavam cercadas por cordas na manhã de ontem. Os moradores encontravam dificuldade para buscar os bens. A prefeitura informou que destinou 70 caminhões e 500 homens para auxiliar os moradores.

Segundo os desalojados, a fila para conseguir o auxílio da prefeitura é grande. Para evitar a espera, muitos resolveram contratar caminhões. "Tive de fazer um empréstimo para pagar os R$ 250 do frete. Não dava para esperar", disse o encarregado Edson Belmiro Feitosa, de 31 anos.

Diante do desespero dos moradores, profissionais que oferecem carreto até dobraram o valor do frete. Quem precisou resgatar o carro e tinha irregularidades foi obrigado a contratar guinchos. "Só ontem recolhi cinco carros. Cobraria R$ 60 normalmente, mas estou pedindo até R$ 100", afirmou o socorrista Francisco Morais, de 38 anos.

Segundo a PM, as reclamações dos moradores não procedem. A expectativa é de que a remoção de bens termine amanhã.

Abrigos. A situação nos abrigos era desconfortável. A doméstica Leidijane da Silva, de 22 anos, disse que a alimentação não é distribuída adequadamente na Escola Dom Pedro. "Ontem teve até briga por leite. Meu marido foi atrás das assistentes sociais porque as crianças ficaram até as 23 horas sem comer." Ela é mãe de Leidiane, de 3 anos, e Silvania, de 6.

O secretário de Desenvolvimento Social, João Francisco Sawaya de Lima, informou que existem outros abrigos disponíveis. "Para o abrigo do Vale do Sol, foram apenas 70 pessoas", disse. Lima informou que os moradores recusam a oferta.

Justiça. A Defensoria Pública entrou com ação civil pública para pedir que a Justiça obrigue a prefeitura a fornecer acolhimento emergencial aos moradores e atendimento habitacional. O processo foi distribuído à 2.ª Vara da Fazenda Pública e aguarda julgamento. / WILLIAM CARDOSO

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