Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Polícia Militar cumpre reintegração de posse na Brasilândia

Ocupação onde vivem 450 famílias ligadas à Frente de Luta por Moradia pertence à Cohab; habitações devem ser erguidas no local

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

16 Junho 2015 | 08h18

Atualizada às 16h00

SÃO PAULO - A Polícia Militar cumpre na manhã desta terça-feira, 16, a reintegração de posse na Ocupação Brasilândia, na zona norte da capital paulista. Segundo a Frente de Luta por Moradia (FLM), cerca de 450 famílias moram no terreno, localizado na Rua Doutor Augusto do Amaral, onde foram erguidos cerca de 300 barracos de madeira além de dez casas de alvenaria. De acordo com a Polícia Militar, há cerca de 800 sem-teto no local.

Os policiais chegaram ao local por volta das 7 horas e esperaram as famílias tomarem café da manhã para iniciar o despejo. Um carro do Corpo de Bombeiros também acompanhou o processo. Recentemente, algumas reintegrações de posse em São Paulo terminaram com incêndios em barracos. Ainda foram disponibilizados três caminhões para transportar pertences dos moradores.

"Essas famílias não têm para onde ir. Nós fomos avisados em cima da hora e vamos ter de ficar na rua", afirma Geni Monteiro, coordenadora da FLM. Entre os moradores, há crianças, idosos e deficientes. Em nota, o movimento afirma que a área está abandonada há mais de 30 anos. "O local era depósito de lixo, e muitos estupros ocorreram ali."

A Secretaria de Segurança Pública (SSP) afirma que a Polícia Militar participou de reuniões com representantes dos moradores, além de órgãos envolvidos, como a Companhia Metropolitana de Habitação (Cohab), a Companha de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e a Subprefeitura Freguesia do Ó/Brasilândia.

"A reunião serviu para avaliar os riscos da operação e orientar quanto ao papel que os policiais do 18º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (18º BPM/M) exercerão, de garantir a segurança dos moradores e de quem cumprirá a ordem de reintegração de posse", diz, em nota.

BRASILÂNDIAPolícia Militar acompanha reintegração de posse na região da Brasilândia, Zona Norte de São Paulo.Repórter Felipe Palma. Posted by Rádio Estadão on Terça, 16 de junho de 2015

A FLM afirma que recebe o apoio da vizinhança para permanecer no local. "No sábado fizemos uma caminhada pelo bairro e muitos aderiram, temos abaixo-assinado expressando esse apoio à nossa permanência, só não estamos conseguindo encontrar apoio nos representantes da Justiça."

Ocupada desde abril de 2014, a área pertence à Cohab, que pretende fazer um projeto habitacional no terreno. A empresa solicitou a reintegração de posse na Justiça e o pedido foi concedido pela juíza Cláudia Barrichello, da 1ª Vara Cível do Foro Regional XII (Nossa Senhora do Ó).

Sem alternativas. Carregando o filho de sete meses nos braços, Maria Roberta Vieira, de 19 anos, via passivamente os vizinhos levarem seus móveis para a rua. Desempregada, ela não sabia dizer onde dormiria à noite. "Não tenho para onde ir, vou deixar minhas coisas na calçada. O que me resta é ter confiança em Deus."

Moradora da Ocupação Brasilândia há mais de um ano, Maria Roberta divide um barraco com o marido, o bebê, a mãe e duas irmãs. Como a família é natural de Alagoas, não tem a quem recorrer por moradia provisória em São Paulo. "Aqui, pelo menos, eu dava um teto para meu filho", afirma. Desempregada, morar de aluguel também é uma possibilidade remota. "Ou pagava por um canto ou comprava fralda."

Com a iminência do despejo, parte dos 800 moradores da comunidade começou a deixar o terreno ainda no sábado, 13. Os que ficaram tiveram de começar a desocupar a área nesta terça-feira, 16.  Não são poucos os que, assim como Maria Roberta, dizem não ter alternativa, senão morar na rua. Outros, no entanto, vão procurar abrigo na casa de amigos ou parentes.

É o caso do casal Renato e Greici Moura (ele de 23 anos; ela, 22), que precisou  desocupar o barraco enquanto o filho, de um ano, estava na creche. Os dois também estão desempregados e devem ficar temporariamente na casa de um familiar.

"A gente limpou o terreno, que estava cheio de ratos, e arrumou tudo para morar. Não temos dinheiro para pagar por aluguel", diz Renato. "Aqui era sossegado, tinha segurança e organização", afirma Greici.

A Frente de Luta por Moradia (FLM), movimento que liderou a ocupação, afirma, em nota, ter o apoio da vizinhança. "No sábado fizemos uma caminhada pelo bairro e muitos aderiram, temos abaixo-assinado expressando esse apoio à nossa permanência, só não estamos conseguindo encontrar apoio nos representantes da Justiça."

Vizinha da ocupação, a dona de casa Cirene Carvalho, de 67 anos, abriu o portão de casa para que os moradores pudessem guardar alguns pertences por lá. "O pessoal é bem pacífico, não tem algazarra", diz. Segundo conta, antes do terreno ser habitado, havia muitos assaltos e presença de usuários de droga na região. "Eu me preocupo com o que vai ser daqui pra frente. Não quero que o cenário de antes volte."

SÃO PAULOReintegração de posse acontece na Vila Brasilândia, Zona Norte de São Paulo. No terreno pertencente a COHAB moravam cerca de 450 famílias.Repórter Marcel Naves. Posted by Rádio Estadão on Terça, 16 de junho de 2015

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