Rafael Arbex / Estadão
Rafael Arbex / Estadão

PM acusado de maior chacina de SP começa a ser julgado nesta terça

Júri de Victor Cristilder tem início em Osasco; três acusados pelas 17 mortes foram condenados

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2018 | 03h00

Começa nesta terça-feira, 27, o júri popular do policial militar Victor Cristilder, preso por suspeita de envolvimento na maior chacina da história de São Paulo, que terminou com 17 mortos e outros 7 feridos em Osasco e Barueri, na Grande São Paulo. Além dos ataques, em agosto de 2015, o policial também é réu em outro homicídio, em Carapicuíba, em uma espécie de “pré-chacina”.

Outros dois PMs e um guarda civil de Barueri já foram condenados a mais de 600 anos de prisão em regime fechado, na soma das penas, em setembro. O júri de Cristilder foi desmembrado após recurso da defesa. Agora, o resultado do seu julgamento pode impactar a decisão anterior.

O PM, por exemplo, é o principal elo entre a chacina e o GCM Sérgio Manhanhã, que já foi condenado a 100 anos e 10 meses de prisão. Eles trocaram “joinhas”, via WhatsApp, em horários que coincidem com o início e o fim dos crimes, mas alegam que a "conversa", só com sinais, era sobre o empréstimo de um livro de Direito.

Uma testemunha-chave, que havia “sumido” após a investigação, também reapareceu após o primeiro julgamento e deve afirmar em plenário que teria mentido ao denunciar o PM Thiago Heinklain, condenado a 247 anos, 7 meses e 10 dias. Por sua vez, o PM Fabrício Eleutério, reconhecido por outra testemunha protegida, recebeu 255 anos, 7 meses e 10 dias de prisão.

++ PMs e guarda-civil são condenados pela maior chacina da história de SP

Lógica. “Se a lógica prevalecer, o resultado tem de ser o mesmo, já que a prova que incrimina os quatro é basicamente a mesma”, disse o promotor Marcelo Alexandre de Oliveira. Na denúncia, o MP-SP afirma que os quatro “integraram verdadeira organização paramilitar, milícia particular, (...) com finalidade de praticar crimes”. Para a acusação, os ataques aconteceram para vingar a morte de um PM e de um GCM, assassinados enquanto faziam “bico” de segurança.

Contra Cristilder, além das mensagens com Manhanhã, pesa o reconhecimento de uma testemunha que o teria visto usando o mesmo veículo da chacina, um Renault Sandero. O carro, que aparece em imagens de câmeras de segurança, nunca foi localizado pela polícia. Outro indício é o caso da vítima Wilker Osório, morto com 40 tiros - o maior número de disparos dos ataques -, que já havia sido preso por Cristilder por tráfico de drogas.

O plenário do Fórum Criminal de Osasco foi reservado por quatro dias para o julgamento, que será presidido pela juíza Élia Kinosita Bulman. Há previsão de 25 testemunhas, entre sobreviventes, familiares das partes e policiais que participaram da força-tarefa que investigou a chacina. O secretário da Segurança Pública de São Paulo da época, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, chegou a ser chamado como testemunha, mas, por ofício, comunicou que não estará presente.

Pré-chacina. Cristilder é réu, ainda, no assassinato de Michael do Amaral Ribeiro, de 27 anos, morto a tiros uma semana antes da chacina, em Carapicuíba. Ribeiro teve o corpo despejado em um córrego. Uma testemunha reconheceu o PM como um dos autores dos disparos.

Entretanto, o suspeito chegou a ser absolvido da acusação em 2016, por uma juíza da 1ª Vara Criminal de Carapicuíba, que alegou supostas contradições da testemunha. Recentemente, o Tribunal de Justiça entendeu que havia indício suficiente para levar Cristilder a júri e reformou a decisão. Ele é acusado de homicídio qualificado e ocultação de cadáver.

“A palavra da referida testemunha não consiste no único elemento que milita em desfavor do acusado”, diz o acórdão. A defesa recorreu do Tribunal de Justiça.

A absolvição na "pré-chacina" fortalecia a tese de que Cristilder não tem envolvimento nos crimes, mas a mudança passa agora a favorecer a acusação. O advogado João Carlos Campanini, que defende Cristilder, afirma que o réu é inocente das duas acusações.

“Não vamos nem discutir fragilidade de provas. Vamos tentar provar a inocência dele com base no processo”, disse. “Vamos trazer muitas coisas novas que não foram levadas em consideração no julgamento anterior. Tem muita surpresa”, afirmou. “Não podemos antecipar, mas muda bem a figura, com elementos novos e provas documentais.”

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