Plástica de voz, urgente!

Nada como o papo de boteco para açular as chamas do besteirol, e foi num desses que, tendo raspado o tacho dos assuntos, enveredamos pelo mais tremulante ufanismo. Nosso futebol! Nossa música! Nosso malemolente jeitinho! - por aí fomos, empapados de chope, a debulhar o tema da insopitável, incomparável inventividade nacional, desdobrada numa fartura de imprescindíveis contribuições verde-amarelas para o bem da humanidade.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

A começar, é claro, pelo avião, que a cara de pau dos americanos insiste em reivindicar para os tais irmãos Wright, só porque eles, parece, voaram antes. Do mesmo Santos Dumont, o relógio de pulso. A abreugrafia, hoje em desuso mas outrora indispensável para conseguir emprego. Ah, sim, os feitos não exatamente espirituais que deveriam valer a três sacerdotes algum tipo de beatificação: Bartolomeu de Gusmão, inventor da engenhoca que, recheada de ar quente, levitou como poucos santos dariam conta de fazer; Roberto Landell de Moura, o injustiçado precursor da radiodifusão; e Francisco João de Azevedo, que, ao bolar um piano cujas teclas permitiam imprimir letras, teria inventado (embora não se lhe reconheçam a façanha) a máquina de escrever.

A partir dos padres, no entanto, foi se tornando constrangedoramente rarefeita a galeria dos nossos professores Pardal. Culpa nossa, ali no boteco. Eu próprio me penitenciei por não haver registrado os nomes de pelo menos três inventores do carro a água que me tocou atender nas redações onde trabalhei. A custo fomos nos lembrando de achados transcendentais como o escorredor de arroz e o descascador de ovos de codorna. Do identificador de chamadas telefônicas conhecido como bina (de "B identifica número de A", aprendi então). Do abano acionado pelo movimento da cadeira de balanço. Aquele lacre de plástico para garantir a inviolabilidade das bagagens. A placa que, nos estádios, marca os minutos de acréscimo. A chuteira de bico quadrado, concebida para afinar a pontaria dos atacantes. O dono da ideia, aliás, criou também uma "tanga-preservativo" de látex, a ser usada pela mulher durante a relação sexual. Não façamos pouco caso, ainda, da jangada de plástico que se pode transportar numa Kombi. No mesmo terreno aquático, o "espaguete" flutuante que vemos na piscina.

A lista certamente é bem maior; nós é que, naquela mesa, não fomos capazes de enriquecê-la. Num exercício suplementar, alguns enumeraram coisas que estão pedindo para ser inventadas. Como as que o Aníbal Machado arrola nas páginas do romance João Ternura, entre elas uma fórmula telepática para descobrir jazidas de petróleo, um plano para amansar a Amazônia e um supositório contra crises de angústia.

De minha parte, teria pouco a propor, e me daria por satisfeito se pudesse simplesmente batizar algo que já existe e que entope a minha caixa de correio, virtual inclusive: a mala direta sem alça. Não tenho o engenho & arte de um colega de colégio que, utilizando um motorzinho de ¼ de cavalo e correias com fivelas, construiu uma maquineta cuja finalidade já se anunciava no nome dado à estrovenga: masturbarola. O invento por pouco não estropiou o inventor, que era por sinal o pior aluno na cadeira de, malícia à parte, Trabalhos Manuais.

Incapaz de desenhar e construir o que quer que seja, ainda assim posso oferecer sugestões daquilo que, a meu ver, precisa ser inventado. Endosso entusiasticamente as ideias de minha irmã Ana Maria, de um liquidificador silencioso e de um alter ego que nos represente no convívio com os chatos. Não viria mal, acrescento, um "editor para chatos", dispositivo para desossar a verborreia de quem, ao contar o que lhe aconteceu ontem, remonta ao ano de 1934.

De meu amigo Jaime, adoto a sugestão do controle remoto com botão para desligar alarme de carro alheio embaixo de nossa janela, zoeira de reforma no vizinho e o gogó esganiçado de dupla sertaneja. Quanto a mim, sonho com o pernilongo sem áudio e a cama ejetável, para quando também o papo murchar. Mais urgente ainda, a plástica de voz. Vuvuzelas e taquaras rachadas, fanhos e roufenhos, há de haver para vós solução. Ei, inventores, precisamos de um Pitanguy da goela!

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