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Fernando Reinach
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Planta manipula besouro

A capacidade de manipular o comportamento do próximo faz parte de nosso repertório comportamental. Quem assistiu a uma campanha eleitoral sabe. Não só induzimos outros seres humanos a se comportar como desejamos, mas usamos os mesmos truques para manipular o comportamento de animais. A manipulação de outra espécie também é comum entre animais. Quem não conhece a história do chupim, que coloca seus ovos no ninho de outro pássaro, induzindo o coitado a alimentar seus filhotes?

Fernando Reinach, O Estado de S. Paulo

31 de outubro de 2015 | 03h00

Agora foi descoberta uma nova e sofisticada forma de manipulação. Uma planta induz um besouro a plantar suas sementes.

Você já deve ter ouvido falar de um besouro chamado, pelo Brasil afora, de rola-bosta. Ele constrói pequenas bolas usando fezes de outros animais. Depois cava um buraco e rola a esfera para dentro do buraco. Tudo isso para obter um local úmido e nutritivo para depositar seus ovos. Os ovos eclodem e as larvas têm alimento garantido.

A nova descoberta foi feita na África do Sul. Um grupo de cientistas tentava descobrir os animais que se alimentam das sementes de uma árvore chamada Ceratocaryum argenteum. Para tanto, deixaram as sementes no solo da floresta, próximas de uma câmara de filmagem ativada por um sensor de movimento. Ao analisar os filmes, observaram que pequenos roedores se aproximavam das sementes e logo iam embora. Apesar de os filmes nunca mostrarem um mamífero devorando as sementes, elas desapareciam. Quem estaria roubando as sementes sem ser detectado pelas câmaras? A primeira indicação veio de um filme que, ao mesmo tempo em que um roedor cheirava as sementes, um besouro aparecia empurrando uma das sementes.

Com base nessa primeira pista os cientistas investigaram o local onde as sementes desapareciam. E foi assim que descobriram sementes enterradas a poucos palmos dos locais onde haviam sido deixadas. A atividade dos besouros nunca era registrada nos filmes. Eles são muito pequenos para ativar os sensores programados para detectar ratos.

Os cientistas resolveram estudar o fenômeno. Colocaram 195 sementes em 31 pontos diferentes da floresta. Vinte e quatro horas depois, 44% das sementes haviam sido removidas pelos besouros e, dessas, 80% haviam sido enterradas. Na maioria dos casos, havia somente uma semente por buraco.

Examinando as sementes, os cientistas descobriram que elas eram extremamente parecidas com as pequenas bolotas de fezes deixadas na região por um roedor. E, mais que isso, elas cheiravam a fezes. Não satisfeitos com o diagnóstico feito pelos seus próprios narizes, os cientistas analisaram os componentes químicos presentes nas sementes. Descobriram compostos químicos responsáveis pelo cheiro típico de fezes.

Num primeiro momento, os cientistas imaginaram que os besouros estavam colocando seus ovos no interior das sementes, da mesma maneira que colocam ovos no interior das bolotas de fezes. Examinando as sementes enterradas, constataram que elas não continham ovos. Os besouros são incapazes de perfurar a casca da semente e depositar seus ovos. Observaram também que as sementes enterradas pelos besouros germinavam mais rápido que as sementes deixadas na superfície.

A conclusão é que os besouros enterram as sementes pensando que estão enterrando bolotas de fezes. E só descobrem o engano quando vão colocar os ovos e se deparam com uma casca dura, em vez da superfície macia das bolotas de fezes. Ou seja, a planta, produzindo sementes com a forma e o cheiro de uma bolota de fezes, induz o besouro a enterrar as sementes, aumentando sua chance de sobrevivência. Já o besouro, ludibriado, trabalha de graça. Gasta energia para enterrar as sementes e não consegue depositar os ovos em seu interior. Pense nisso na próxima vez que enterrar seu voto em uma urna.

MAIS INFORMAÇÕES: FAECAL MIMICRY BY SEEDS ENSURES DISPERSAL BY DUNG BEETLES. NATURE PLANTS VOL. 1 PAG. 1 2015

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