Rafael Arbex / Estadão
Rafael Arbex / Estadão

Plano prevê bairro dentro de autódromo

Projeto para Interlagos inclui um novo espaço com prédios residenciais e hotel; ideia é reurbanizar 14% do atual complexo automobilístico

Fabio Leite, O Estado de S.Paulo

22 Fevereiro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Maior ativo público na lista de privatizações da gestão João Doria (PSDB), o autódromo de Interlagos, na zona sul de São Paulo, deverá ganhar um novo bairro com prédios residenciais, um complexo empresarial com escritórios e hotéis e até um shopping instalado no meio do circuito da Fórmula 1. Esses são os negócios imobiliários que a Prefeitura propõe liberar para a empresa que comprar o autódromo para valorizar a venda do espaço.

A gestão destinou ao todo três diferentes áreas que ocupam, juntas, 14% dos 960 mil m² do autódromo para que o futuro dono de Interlagos promova seus negócios. A proposta permitirá a construção de até 480 mil m², o equivalente a quatro edifícios como o Copan, prédio emblemático no centro da capital, com torres sem limite de altura. A maior área, de 70 mil m², é a do atual kartódromo Ayrton Senna, que deverá virar um bairro com cerca de 25 prédios para receber até 5 mil famílias.

Como contrapartida, o futuro dono de Interlagos terá de manter a pista oficial para atividades automobilísticas, exigência definida no projeto de lei de privatização do autódromo, instalar um parque público de acesso gratuito dentro do circuito e construir 1.579 moradias populares no entorno. 

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A proposta foi divulgada há duas semanas pela Prefeitura juntamente com o Projeto de Intervenção Urbana (PIU) Arco Jurubatuba, na zona sul, e ficará em consulta pública até o início do mês que vem, quando poderá sofrer algumas alterações antes de ser enviado para a Câmara Municipal até o fim de março. O projeto precisa ser aprovado em duas votações por 2/3 dos vereadores para virar lei.

Com 78 anos de história, Interlagos foi incluído por Doria na lista de equipamentos a serem privatizados por ser muito custoso e ocioso. Segundo a Prefeitura, o gasto anual chega a R$ 55 milhões, sendo R$ 5 milhões com manutenção e pessoal e R$ 50 milhões com a montagem das estruturas provisórias para o GP de Fórmula 1, além de grandes reformas estruturais. A última, em 2016, custou R$ 160 milhões. Em outubro do ano passado, Doria disse que queria privatizar o autódromo até março deste ano e arrecadar com ele até R$ 2,5 bilhões. Agora, porém, a meta é concluir o processo neste ano.

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Negócio

 A destinação de áreas dentro do autódromo para exploração imobiliária foi a solução encontrada pela gestão Doria para valorizar o terreno de Interlagos. Um dos maiores entusiastas da ideia é o presidente da Câmara, Milton Leite (DEM), aliado do prefeito e com reduto eleitoral na região. Segundo o diretor de desenvolvimento da São Paulo Urbanismo (SP Urbanismo), Leonardo Amaral Castro, os locais e os parâmetros de construção permitidos foram definidos de modo a preservar a visibilidade da pista por quem for assistir às corridas, além do córrego e do lago que existem no circuito. 

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“Nós apontamos soluções que o empreendedor poderá adotar e, por causa das condicionantes ambientais e visuais, fica muito difícil sair disso que está proposto”, disse Castro. “Tanto a área do kartódromo como a do centro empresarial ficam na parte externa da pista e terão um potencial construtivo maior, com atividades que consideramos articuladas à venda de Interlagos. Já na parte mais sinuosa do traçado, escalonando bem a edificação, cabe um centro de compras com a oportunidade de os clientes assistirem às corridas.”

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Para o arquiteto e urbanista Cândido Malta, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), o projeto pode estimular um adensamento prejudicial para uma região delicada da cidade, por causa da presença de dois importantes mananciais, Billings e Guarapiranga – o nome Interlagos faz referência à região suíça “Interlaken”, que significa “entre lagos”.

“É perigoso porque a lei de proteção aos mananciais ainda não definiu um limite para o adensamento dessa região, ou seja, até onde se pode avançar sem que a poluição difusa acabe com os nossos mananciais”, disse Mata. Segundo a gestão Doria, o adensamento proposto foi “conservador” e controla os impactos ambientais.

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