Plano de reconstrução só quando baixar a poeira

Quase três semanas após catástrofe na região serrana, governo e especialistas discutem momento certo para próximo passo

Fernando Gabeira, O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2011 | 00h00

Levanta, sacode a poeira e dá volta por cima. É o que ensina a letra do samba. Mas quando a poeira são toneladas de terra desprendidas dos morros a volta por cima é um problema. Apesar dos R$ 450 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do empréstimo de R$ 1 bilhão do Banco Mundial, que deve sair logo, o Rio ainda não tem projeto de reconstrução para a região serrana.

O governo já criou um gabinete de emergência e reconstrução. Será supervisionado pelo vice-governador, Luiz Fernando Pezão. O prefeito de Bom Jardim, Affonso Monnerat, deixará o cargo para se dedicar ao tema. "A ideia é reconstruir em novas bases, ouvindo geólogos e ecologistas, mas realizando também um debate mais amplo na sociedade", avisa Pezão.

Um grande número de máquinas e trabalhadores de empreiteiras foi deslocado para a serra. As empresas telefônicas reparam suas ligações e, na tarde de terça-feira, a comunicação por celular voltou ao normal.

As tarefas de emergência não foram concluídas, mas o debate da reconstrução não é supérfluo. Ecologistas afirmam que os rios mudaram de curso. O Exército está construindo duas pontes provisórias. Mas, para construir outras, precisa saber se a posição antiga vai prevalecer.

Um dos grandes problemas da reconstrução é dar casa para cerca de 7 mil famílias. A prefeitura de Nova Friburgo desapropriou a Fazenda da Laje, mas parece consciente de que não bastam as casas: será necessária infraestrutura urbana para um bairro. Técnicos afirmam que até a construção de escolas será revista, para aumentar a segurança. Deverão ser erguidas sobre pilotis.

A falta de um diagnóstico preciso transforma as ideias iniciais em puro palpite. A Secretaria do Meio Ambiente anunciou que criaria um parque fluvial no Vale do Cuiabá, porque o rio mudou de curso. Proprietários argumentam que o rio saiu do seu leito em quase dois quilômetros, mas está voltando ao normal.

O único documento existente sobre os rios é o relatório preliminar do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea-RJ), no qual engenheiros defendem obras mais simples: barragens e ondulações para conter a velocidade das águas.

Retorno. O vale - onde o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio (Firjan), Eduardo Eugênio Gouveia, tem casa - é um dos lugares que pode ser reconstruído com rapidez. Um grupo de empresários ofereceu terreno aos desabrigados e muitas casas ainda estão de pé. A ideia é recuperar atividades anteriores, como os haras.

As demolições de casas em área de risco começaram em Friburgo. No entanto, em muitos lugares há uma discussão grande sobre o que demolir. No bairro Caleme, em Teresópolis, a Defesa Civil marcou um poste no meio da Rua Canário e afirmou que acima daquele ponto todos tinham de sair. Foi cortada a luz na área considerada de risco, mas muitos moradores afirmam que sua casa é segura.

Produção. Os 15 mil agricultores da região serrana terão uma chance de recomeçar, a partir do financiamento do Banco do Brasil, que destinou R$ 80 milhões. Há outras medidas para atenuar o prejuízo, como o prolongamento das dívidas por 18 meses e gratuidade no depósito de Cobal, onde eles vendem seus produtos. A agricultura no Rio é insignificante: 1% do produto estadual. A região serrana, que já abastece o Rio, tem duas vantagens: está próxima da segunda maior cidade do País e explora nichos importantes, como a produção orgânica.

Embora a coordenação da ajuda ainda não tenha sido assumida por nenhum órgão público, as prefeituras da região criaram um consórcio para ampliar sua capacidade. Projetos como o da construção de centros de saúde especializados em oncologia estão sendo mencionados como complemento às mudanças.

Um dos temores na região é o da saída de empresas. Vários pequenos empresários perderam casa e oficina de trabalho. Em Nova Friburgo, ainda há perdas por falta de energia para a irrigação e o tomate colhido está sendo jogado fora, após boatos de que foi contaminado.

Dos milhões anunciados, chegaram apenas os destinados à emergência, distribuídos assim: R$ 10 milhões para Friburgo, R$ 7 milhões para Teresópolis e R$ 7 milhões para Petrópolis. A reconstrução vai abranger mais quatro cidades: Bom Jardim, Sumidouro, Areal e São José do Vale do Rio Preto.

Amanhã, começam a ser emprestados os R$ 450 milhões do BNDES. O governo pretende montar uma estrutura para o empréstimo e outra para orientar os candidatos - em geral, pequenos empresários.

O debate sobre os caminhos da reconstrução não está contando, no momento, com a Assembleia e o Congresso, porque a posse dos eleitos só acontece na semana que vem. Houve apenas uma sessão no Congresso, promovida pela Comissão Especial do recesso. Já a Assembleia Legislativa do Rio constituiu grupo de acompanhamento.

Foco. O grande desafio é iniciar o debate antes que a região saia do foco. O Exército distribui salva-vidas para atravessar pontes provisórias. Mas ainda não foi oficialmente anunciado se o equipamento meteorológico de Petrópolis será reativado. Para não gastar R$ 900 mil por ano, o prefeito de Petrópolis, Paulo Mustrangi, os manteve inativos. Nas conversas, todos afirmam que nada será como antes. Mas será preciso baixar a poeira para saber se lições do temporal foram levadas a sério

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