'Pior já passou. Pretendo voltar a todo vapor', diz Sobel

Rabino Henry Sobel coreografa seu retorno à cena, em setembro. E promete novidades, como sua biografia

Marc Tawil, do Jornal da Tarde,

27 de agosto de 2007 | 09h07

Acostumado a platéias lotadas, aos holofotes da mídia e a tapinhas nas costas de mãos poderosas, Henry Sobel viu seu nome migrar, da noite para o dia, das colunas sociais para as manchetes policiais. Ao desafiar a lei dos homens e, pior, atropelar um dos Dez Mandamentos, o rabino mais carismático do Brasil, que nem brasileiro é, entrou em depressão.   Do dia 23 de março, quando foi detido em Palm Beach, Flórida, acusado de furtar cinco gravatas das marcas Louis Vuitton, Giorgio's, Gucci e Giorgio Armani, ele pouco se recorda. Mas lembra com clareza do que passou (e ainda passa) quando pára para se penitenciar pelo incidente.   Longe da Congregação Israelita Paulista (CIP), cujo Rabinato presidiu nos últimos 37 anos, decidiu escrever suas memórias: Sobel, o livro, sai em 2008. Com os cabelos mais curtos e penteados para o lado, onde repousa a tradicional quipá vermelha, o rabino recebeu o JT em seu apartamento, em Higienópolis. Respondeu a todas as perguntas, admitiu erros, aceitou a culpa e avisou: vai voltar 'a todo vapor', em setembro, nas festividades do ano novo judaico. O senhor sempre foi muito vaidoso. De quem herdou essa vaidade? Provavelmente da minha mãe. Ela era uma mulher vaidosa, no bom sentido da palavra. Se preocupava muito com as roupas, a aparência. Era uma mulher de grande valor interno e externo. Eu a amava muito. Me relacionava muito bem com ela e com meu pai. Dele, eu herdei um apreço por estética e, ao mesmo tempo, pela ética. Ainda bebê, o senhor deixou Portugal para viver em Nova York. Na sua adolescência, ia a shows? Tantos shows me marcaram... Eu vivi uma época muito especial. Vivi a época de 1960 em Nova York, o auge da musica popular mundial. Um show que me marcou foi Simon & Garfunkel, no Central Park, em 1968. Nunca vou me esquecer. Todos nós sobre cobertores, na grama... Foi uma confraternização única. Todo mundo junto e respeitando a individualidade do outro. Não foi Woodstock (risos). Também assisti a shows dos Beatles no Madison Square Garden. Realmente vivi a época certa no lugar certo. Chegou a fazer 'extravagâncias' como... fumar maconha? Nunca. Por falta de interesse... Não sou santo e não era santo naquela época. Não por motivos morais. Simplesmente não tive oportunidade. Além do mais, posso contar a você um segredo? Sim, claro. Como se diz em português inhale? Inalar, tragar? Isso! Não sei inalar um cigarro, tragar! Fiquei com vergonha perante meus amigos de pegar maconha e não saber mexer (às gargalhadas)! Como quase todo jovem, também foi contra a intervenção americana no Vietnã, em 1969? Nos meus anos na escola rabínica, principalmente nos dois últimos, como presidente do Conselho Estudantil, liderei um movimento em Washington. Organizamos uma passeata contra a guerra e contra o presidente Lyndon Johnson. Quando decidiu que seria rabino? Decidi ser rabino porque tive judaísmo no sangue, no ar, produto de um lar judaico tradicional e, ao mesmo tempo, moderno. No meu último ano de faculdade de Química, resolvi entrar no seminário do Hebrew Union College. Vindo dos Estados Unidos num ano tão festivo quanto o do tricampeonato de futebol, em 1970, não procurou se aventurar em 'bater uma bola' para cativar os brasileiros? Sempre admirei os jogadores do Brasil, embora, pessoalmente, eu jogue mal. Adoro assistir aos jogos, principalmente às Copas. Estava fascinado em vir para o Brasil, não só pela Copa, mas principalmente por causa do povo. Viajei um pouco na vida e lhe digo: não existe um povo igual no mundo. Me interessei por futebol e acompanhei como espectador, como leitor. Até tentei, mas mal consegui driblar! Muito antes do surgimento do Padre Marcelo, nos anos 1990, foi atribuída ao senhor a figura do 'rabino celebridade'. Essa postura midiática foi proposital? Marketing? Era uma postura natural, como conseqüência de acontecimentos em nível nacional. No auge da ditadura, na década de 1970, eu trabalhava muito com o cardeal d. Paulo Evaristo Arns, em defesa dos direitos humanos. E estivemos juntos em casos que chamaram a atenção da imprensa. Como o caso (Vladimir) Herzog. Sim, foi o caso do assassinato - e não a morte - de Herzog. Acredito que foi por causa disso que houve uma projeção do rabino e do cardeal na mídia. Não foi coreografado, não fazia parte do marketing pessoal. Era uma resposta ao momento histórico que estávamos vivendo. Mas seus críticos afirmam que, desde então, o senhor centralizou o papel de porta-voz da comunidade. É muito fácil criticar, especialmente quando a gente está tão vulnerável e na mídia. Eu ocupava um espaço meu como rabino, sempre tentando passar uma mensagem. Outros que me criticaram na época simplesmente não ocupavam o seu espaço. Bastava a liderança comunitária ocupar o mesmo espaço que eu. Aí, não haveria motivos para criticar. Aprendi com meu pai que 'agradar a todos significa não agradar a ninguém'. Estava fazendo meu papel. Acreditava, e ainda acredito, naquilo que faço. Cada um tem direito de se manifestar numa sociedade livre e democrática. Das muitas histórias pitorescas a seu respeito, uma diz que o senhor costumava tomar café com mendigos na esquina da CIP. É verdade. Alguém me perguntou como é lidar com gente do poder. Eu gosto de lidar com gente poderosa, mas sinceramente gosto de me dar com as pessoas simples. Vou ao bar da esquina da CIP, e lá tenho uma turma de amigos, inclusive uns mendigos. Ao invés de dar uma moeda, os convido para um café. É um diálogo de respeito. Não sou um santo, repito, mas levo muito a sério as pessoas. Ir para Brasília e sentar-me com o presidente Lula ou ir ao bar tomar um cafezinho com um mendigo são dois contextos que me proporcionam muita satisfação. Sinceramente. Falando na CIP, há, ainda, muita desconfiança em relação à sua volta. O senhor está sendo substituído? Não estou. Vou voltar em setembro, nas festividades do Rosh Hashaná, o ano novo judaico. Haverá um novo rabino contratado para ampliar o rabinato e torná-lo mais ativo. Não foram definidas quais as minhas funções, mas vou continuar vinculado à Congregação e, certamente, terei um cargo. Não sei se de presidente do Rabinato ou presidente emérito, ou rabino mor. Essa volta é que vai garantir a minha continuidade na CIP e no País. Já pensou em escrever suas memórias um dia? Sim, estou fazendo isso agora. Trata-se de uma autobiografia sobre meus 37 anos no Brasil. Ela tem nome? Pode nos adiantar dois capítulos? Provavelmente vai se chamar 'Sobel'. Estou com 50% do livro pronto e espero lançá-lo em fevereiro ou março. Um dos capítulos é sobre a política interna da comunidade judaica brasileira. Outro será sobre meu relacionamento pessoal com o falecido papa João Paulo II, com quem tive o privilégio de ter tido cinco encontros em particular. Ele foi, para mim, o maior dos papas. Acreditava no diálogo entre as religiões. O episódio das gravatas, em Palm Beach, estará no livro? Sim. Com toda a minha humildade, pretendo abordar a questão. Primeiro, não seria honesto fugir de um capítulo que me marcou tanto. Palm Beach não faz parte da minha biografia, embora conheça meus defeitos. É difícil explicar o inexplicável... Foi, sem dúvida, o capítulo mais doloroso na minha vida. Depois disso, seu pique acabou? Quando voltei de Palm Beach, fiquei internado durante nove dias. Entrei em depressão profunda. Como é possível algo assim acontecer? Uma das causas principais dessa depressão foi um sentimento de culpa. No hospital, fui desintoxicado. Felizmente, saí da depressão. Me sinto firme. Na minha cabeça, o pior já passou. Minha motivação, hoje, é a mesma do que antes de Palm Beach. Meu pique também. Pretendo voltar a todo vapor. Sua rotina continua de workaholic? Trabalha como antes? Não, não é. Meu ritmo diminuiu pelo menos 50%. Pedi uma licença de saúde. Ainda acordo cedo, leio quatro jornais, faço minhas preces... Celebro um ou outro casamento. Tenho, na segunda e quarta, visita ao neurologista. E vou à CIP e ao meu escritório particular, onde respondo cartas, escrevo matérias e dou seqüência ao meu livro. Acompanhou o que foi dito sobre o senhor nesses meses? Houve injustiças por parte da imprensa? A imprensa foi honesta. Sofri muito, porém, se você me permite falar, me senti massacrado pela mídia. No fundo, ela relatou o que aconteceu. Era o papel dela, não tenho queixas. Mas poderia ter sido poupado, um pouco, do exagero, da repetição, da ênfase sobre o ato por parte da mídia falada. Não pensa que, se não estivesse sempre tão presente, teriam se 'esquecido' do senhor? Talvez, talvez, talvez... Não sei... Realmente, por ser público demais, eu tenha sofrido as conseqüências. Mas repito: em geral, a mídia foi fiel à verdade. Não tenho reclamações dela e sim contra mim. A mídia não é o bode expiatório. Teme que algo semelhante possa voltar a acontecer? Tenho quase certeza absoluta de que isso nunca mais vai voltar a acontecer por causa da experiência traumática e dramática que sofri. Quando passamos por aquilo (pausa)... há manchas que ficam para sempre.Conseguiria esclarecer por que furtou cinco gravatas de grife e não produtos mais modestos?Conscientemente, não tenho nenhuma explicação para isto. Deve haver uma, mas talvez o meu psiquiatra explique melhor. Houve pessoas que se afastaram do senhor por vergonha? Sim. As pessoas se revelaram. Graças a Deus, poucas. Minha sorte é que a grande maioria me apoiou. Muitos amigos dentro da CIP, dentro da comunidade e fora da comunidade acreditaram na minha pessoa (pausa)... As pessoas que não gostavam de mim antes do incidente Palm Beach só acharam mais um motivo para não gostar. O episódio alimentou sentimentos previamente estabelecidos. As pessoas que me defenderam durante 37 anos são as mesmas pessoas que, hoje, me apóiam. Pensou em sair do Brasil? Nunca. Houve um boato espalhado por e-mail. Chamo de 'fofocas da oposição'. Sou apaixonado pelo Brasil - tanto hoje como em 1970. Em setembro é Rosh Hashaná, o ano novo judaico. Como será essa data para o senhor? Irei ao encontro da minha comunidade e gostaria que a minha presença fosse interpretada como uma manifestação de gratidão, pelo apoio que recebi da maioria dos sócios da Congregação. Rosh Hashaná e Yom Kippur (Dia do Perdão) são dias de introspecção. Pretendo olhar para dentro de mim, tentar avaliar o que aconteceu neste ano, quais foram minhas falhas... E assumir um compromisso comigo mesmo de nunca mais repetir um incidente como aquele. Judeus são notórios piadistas. O senhor aceitaria ou entenderia, no futuro, algum tipo de anedota sobre o episódio das gravatas? Acho que tudo é possível. Seria, obviamente, de mau gosto. Hoje faz cinco meses e não escutei nenhuma manifestação de humor a respeito. Se for algo generalizado sobre o povo judeu e o furto de gravatas, ficaria muito triste. Se for meu nome, exclusivamente, ficaria muito chateado, mas não abalado. Rabino, o seu sotaque é eterno? Dizem que falo assim porque é minha marca. Outros dizem que é charme. Mas a verdade é que não tem nada a ver com charme e tudo a ver com sotaque. Mewsmo!

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