Pioneiro, edifício na Marginal atrai empresas Brasil já é o 4º país em 'prédios verdes'. E 64% estão em SP

Para obter selo, empreendimento tem de cumprir requisitos como uso de luz natural, gestão de resíduos e utilização de recicláveis

EDISON VEIGA, RODRIGO BURGARELLI, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2012 | 03h04

O empreendimento paulistano que se tornou modelo em sustentabilidade é o Rochaverá, às margens do Rio Pinheiros, na zona sul - projetado pelo escritório Aflalo & Gasperini Arquitetos. Uma das características que contaram a favor foi o sistema de reúso da água da chuva. Absorvida nas coberturas das torres e nos ralos em toda a área do empreendimento, ela é encaminhada para um depósito, de onde o líquido é bombeado para a superfície, irrigando jardins.

Os elevadores ficam no centro das torres, de forma que as laterais sejam todas ocupadas por janelas. Dessa forma, há uma superfície maior para incidência de luz natural e as lâmpadas não precisam ficar ligadas o tempo todo. Para evitar o uso desnecessário de ar-condicionado, o lado oeste - mais sujeito à ação solar - tem placas de granito intercaladas com os vidros para impedir o aquecimento interno. Do outro lado, há apenas vidro. Na cobertura, além de um jardim para absorver a chuva, foram usadas tintas reflexivas para que o calor não seja absorvido.

Quando a industria farmacêutica Boehringer Ingelheim decidiu mudar sua sede paulistana, em 2009, buscou o Rochaverá justamente por causa da certificação sustentável. "Nosso principal critério na escolha foi esse: que o local fosse condizente com nossos valores", explica Adriana Von Treuenfels, diretor de Relações Institucionais da empresa. "O prédio aquece menos, então o consumo de ar-condicionado reduz muito."

"A modernidade e a proposta sustentável do empreendimento fazem parte de nossos valores", completa a publicitária Mônica Panelli, diretora de marketing da empresa de consultoria Everis, cujo escritório fica ali. "A principal vantagem de estar em um prédio ecologicamente correto é a redução de custos operacionais relacionados à manutenção do escritório." / E.V. e R.B.

Na onda das práticas mais sustentáveis, o número de "prédios verdes" no Brasil não para de crescer. Já há 51 construções com o selo no País - 33 deles no Estado de São Paulo. Outros 525 estão em processo de certificação. Isso faz com que o Brasil seja o quarto no ranking mundial de construções verdes, atrás apenas dos Estados Unidos, dos Emirados Árabes Unidos e da China.

E a tendência é que essa quantidade aumente ainda mais, já que até maio 91 novos prédios entraram com pedido de certificação. "É uma tendência irreversível", acredita Amilton de França Júnior, diretor de Sustentabilidade do Secovi, o sindicato do setor imobiliário. "Cada vez mais os clientes estão ficando atentos para isso, estão exigindo."

Especialistas defendem que construir um prédio atualmente sem vislumbrar uma certificação ambiental pode se tornar um mico a médio prazo. "Acreditamos que hoje é muito arriscado construir um empreendimento sem essa preocupação", avalia o consultor imobiliário Adriano Sartori, diretor da empresa CBRE. "Pois num futuro próximo o prédio ficaria em posição desfavorável no mercado."

Para ser considerado um "prédio verde" e conseguir o selo Leed, o empreendimento passa pela avaliação de alguns requisitos, como uso de iluminação natural, gestão de perdas e resíduos, administrações do consumo de água e energia elétrica, uso de materiais renováveis, qualidade interna do ambiente e ideias inovadoras.

Um dos quesitos mais importantes é a localização do empreendimento. O terreno não deve ser contaminado e cobra-se uma boa infraestrutura local, principalmente de transporte público, para evitar que o edifício se transforme em um polo gerador de congestionamentos. Construções também devem reservar espaço para bicicletários e incentivar ações ecológicas - reservando vagas de estacionamento perto dos elevadores para quem der carona e para veículos de baixa emissão de carbono.

Muitas dessas exigências não significam necessariamente aumento no custo final da obra e podem ser alcançadas com mudanças estruturais. O processo para conseguir o certificado Leed custa aproximadamente US$ 3 mil para as incorporadoras. Os projetos são enviados para o World Green Building Council, nos Estados Unidos, e depois há um acompanhamento da obra pelo escritório brasileiro da instituição. O certificado é emitido seis meses após a entrada em operação do empreendimento.

O World Green Building Council também analisa a qualidade de todo o material usado nos canteiros de obras, avalia se é renovável e qual sua procedência. O laboratório Delboni Auriemo de Santana, por exemplo, foi construído com madeira certificada e todo o material usado foi comprado em um raio de 800 quilômetros da capital.

Custo. Especialistas afirmam que o investimento feito na construção e na obtenção do selo é recuperado pouco tempo depois. Um imóvel com o selo verde se valoriza cerca de 30%. Com a economia do uso de água e luz, por exemplo, o condomínio tende a cair. "Um prédio verde economiza 50% de água e tem um ganho de eficiência energética que chega a 40%", explica o consultor imobiliário Adriano Sartori, diretor da empresa CBRE. "Ao longo dos anos, isso representa uma economia brutal." Por causa da qualidade do material, os custos de manutenção também acabam sendo menores.

"Na construção, os custos não chegam a 2% a mais do que um prédio convencional", afirma o arquiteto Roberto Aflalo Filho, do escritório Aflalo & Gasperini Arquitetos. "No geral, os clientes que ultimamente nos procuram já expressam essa preocupação: querem obter a certificação."

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