Pintor alemão registra noite do centro de SP

'Quando a cidade escurece, as pessoas somem, o silêncio impera e dá para captar cada detalhe', explica Jan Siebert, autor de exposição no Mube

Valéria França, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2010 | 00h00

Praça Roosevelt. Moradoresde rua ajudavam a  guardar os pincéis, telas e cavalete de Jan          

 

 

 

 

A Praça Roosevelt, o Minhocão e o prédio dos Correios foram alguns pontos do centro da cidade de São Paulo registrados pelo artista plástico alemão Jan Siebert, de 39 anos. Desde 1994, ano em que deixou a Alemanha para conhecer o mundo, ele vem pintando as cidades por onde passa. São Paulo é uma delas e está na exposição Aquém do Concreto, aberta no Museu Brasileiro de Escultura (Mube), no Jardim Europa.

Quando chegou à capital paulista em 2008, Siebert se assustou. "Nunca vi uma cidade com tanto concreto. Achei feia e caótica. Mas com o tempo comecei a conhecer as pessoas e a gostar do que via." Seu primeiro ponto de parada foi a Praça Roosevelt, na época abandonada e tomada por moradores de rua e usuários de crack.

Ele foi atraído pela estrutura de concreto, imensa, que ocupa quase toda a praça, mas ficou mesmo pelo que encontrou na parte interna do prédio: um submundo cheio de códigos próprios, que, apesar de violento, o acolheu e protegeu.

"Assim que montei o cavalete, as pessoas foram se aproximando. Depois de um tempo, guardavam minhas coisas", conta ele, já num português fluente. As telas, o cavalete e os pincéis ficavam com os moradores de rua quando Siebert voltava para casa para dormir. "Era mais seguro deixar lá. No caminho, sabia que podia ser assaltado."

"Às vezes ficava com medo de perder tudo. Quando a Prefeitura passa, costuma recolher todos os objetos de quem dorme na rua. Dá até pena. Podiam perder tudo, mas deixavam meus quadros escondidos, seguros." Uma noite, Siebert chegou e suas telas haviam sido transformadas em estrutura para uma espécie de cabana contra o frio.

"Aos poucos fui observando os vestígios que o passado havia deixado nas paredes do local. Vi peixinhos pintados, aos quais os moradores deram uma expressão diabólica. Foi então que descobri que ali funcionou uma escola de crianças e, ao lado, um supermercado. Pareceu-me impossível."

Dos habitantes da Praça Roosevelt, Rafael era o mais próximo de Jan. "Um dia ele me pediu tinta. Eu dei. No dia seguinte me chamou, todo orgulhoso, para mostrar o que tinha feito." Mais tarde, descobriu que Rafael era um dos ladrões mais violentos da região. "Ele nunca me pediu um tostão. Tinha respeito e admiração pelo meu trabalho."

Bem mais fácil e menos intrigante foi pintar o Minhocão. "Lá foi tranquilo. É um ponto de passagem, onde ninguém fica." E isso quer dizer um pedaço da cidade sem dono. "À noite, sempre tem alguém que manda no pedaço. E você precisa se aproximar, meio que pedir permissão para estar ali."

Não seria mais fácil trabalhar de dia? "Nesse período, as ruas estão muito cheias de gente e não há como perceber o lugar", explica. "Quando a cidade escurece, as pessoas somem, o silêncio impera e dá para captar cada detalhe."

O grafite das paredes, o papel jogado no chão, a janela do prédio velho aberta, o reflexo da poça d"água são detalhes que surgem no quadro como se fosse uma foto. "Os quadros de Siebert vão além da reprodução fidedigna do cenário", diz a curadora da exposição, Lilian Heitor. "É a visão do autor, o que de fato salta aos seus olhos. " E os preços variam de R$ 3 mil a R$ 25 mil.

Alemanha. Sua saída de Hamburgo foi estimulada por um anseio profissional. Ele deixou a carreira de ilustrador para se dedicar às artes plásticas e buscava novas inspirações. Decidiu-se pela América Latina. "A cultura latino-americana é muito atraente. Ao contrário dos alemães, que seguem as regras nos seus mínimos detalhes, nesse lado do mundo as pessoas têm mais flexibilidade."

Ele passou oito anos no México e voltou para a Alemanha. Ficou um ano e decidiu vir para o Brasil. "São Paulo é a capital da América Latina", afirma. "É a cidade mais moderna, mais europeia. Mas ainda tem de apostar muito na educação. Tem tanto lixo na rua, porque falta educação."

Serviço

JAN SIEBERT - AQUÉM DO CONCRETO. ONDE: MUBE. ENDEREÇO: AVENIDA EUROPA, 218, JARDIM EUROPA. TEL.: (11) 2594-2601. QUANDO: ATÉ 22 DE AGOSTO. GRÁTIS

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