Pessoas não saem de casa para evitar saque

Contra abusos, Corregedoria põe agentes à paisana em veículos descaracterizados

Rodrigo Burgarelli ENVIADO ESPECIAL / RIO, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2010 | 00h00

Com medo de ter a casa arrombada, vários moradores do Complexo do Alemão não foram ao trabalho ontem e preferiram ficar em casa de vigília, para esperar possíveis abordagens policiais. Houve queixas de furtos e saques. As revistas eram o assunto do dia nas mesas de bares e restaurantes da região.

Segundo os moradores, os policiais estão destruindo portas, fechaduras e portões das residências que querem vasculhar, mas que não há ninguém na hora - e saqueadores acabam furtando objetos, eletrodomésticos e móveis depois. Para evitar que isso aconteça, o marceneiro Onofre de Souza, de 67 anos, não sai de casa desde sexta-feira. "Já revistaram minha casa três vezes, mas sempre vem uma equipe diferente e querem ver tudo de novo. Aí eu fico aqui esperando a próxima revista", diz. Como não tem carteira assinada, Onofre calcula que os prejuízos acumulados cheguem a R$ 500. "Mesmo assim, é melhor do que ter a casa roubada."

Quem é empregado registrado acabou combinando com o patrão de não ir para o trabalho enquanto as revistas não acabarem. O funcionário público Pedro Ferreira, de 62 anos, trabalha na prefeitura e foi dispensado hoje para tomar conta da sua casa e da igreja evangélica onde é pastor. "Mesmo assim, os homens arrombaram a porta do templo."

As denúncias de abuso policial também atingem casas que foram abandonadas por traficantes. Na Rua do Coqueiro, vizinhos denunciaram no domingo a existência de uma casa luxuosa que pertencia a um criminoso que fugiu do complexo com a mulher e os dois filhos. Lá, no entanto, não havia armas ou drogas - segundo moradores da região, ele "respeitava muito a família" e não levava nada para casa.

Os vizinhos contam que, mesmo assim, os policiais depredaram todo o local e incitaram crianças que assistiam à operação a saquear a casa. "Estão ensinando os meninos a roubar", reclamou um senhor. Embaixo da casa, mora uma aposentada, que disse ter ficado desesperada com a ação policial. "Eles estavam quebrando tudo e falando em tocar fogo, e eu com um bebê aqui dentro. Ficamos muito assustados."

Um grupo de oito ONGs que atuam no Complexo do Alemão monitora as denúncias e divulgou que os problemas são "esporádicos". Em um encontro previsto para quinta-feira, as entidades pretendem apresentar as propostas dos moradores para as áreas de cultura, saúde, educação, esporte e meio ambiente.

Providências. Ontem, o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, foi enfático ao falar sobre a punição para desvios de conduta. "O policial militar será colocado para rua com a tropa em forma, ação que há 30 anos não acontece na PM", declarou.

O corregedor-geral, Giuseppe Vitagliano, revelou que 20 agentes do órgão estão circulando em veículos descaracterizados e à paisana para flagrar abusos de policiais civis e militares nas ocupações. "Isto foi previamente planejado. Já esperávamos que abusos ocorressem", disse. / COLABORARAM PEDRO DANTAS e BRUNO BOGHOSSIAN

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