Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Pesquisadores da USP são sócios de firmas beneficiadas por contratos

Fusp intermediou projetos dessas empresas com Petrobrás, como construção de laboratório da Poli por R$ 9 milhões, em 2002

Paulo Saldaña, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2015 | 22h00

Pesquisadores e professores da Universidade de São Paulo (USP) aparecem como sócios de várias empresas beneficiadas com contratos em projetos da Petrobrás intermediados com a Fusp. Muitas vezes, as empresas com sociedade cruzada dividem serviços no mesmo projeto.

É o caso, por exemplo, do projeto 1.848 da Fusp, de desenvolvimento de novos modelos no simulador Tanque de Provas Numérico (TPN), laboratório da Escola Politécnica da USP. As empresas TMTG, Technomar e GPR conseguiram, juntas, contratos de R$ 149 mil somente neste contrato. As três têm sócios em comum entre elas.

Pesquisador do TPN, o engenheiro Edgard Malta é sócio da TMTG e também da Technomar - que já teve entre os donos o professor da USP Eduardo Aoun Tannuri. Outro sócio da Technomar é Fabiano Rampazzo, que aparece como sócio da GPR - empresa dissolvida em 2013. Rampazzo também é ligado ao TPN e foi orientado no mestrado pelo coordenador do laboratório, Kazuo Nishimoto.

Na outra empresa do professor Tannuri, a DT Comp, outro sócio da Technomar, o pesquisador Carlos Hakio Fucatu (do TPN) também já constou como sócio. Retirou-se da empresa, entretanto, no ano passado. Fucatu foi orientado no doutorado pelo professor Nishimoto.

Juntas, TMTG, Technomar e GPR garantiram R$ 1,1 milhão - 60% de todo valor pago (R$ 1,9 milhão) a empresas ligadas a professores e pesquisadores da USP em convênios com a Petrobrás. As informações sobre as empresas são públicas e foram consultadas pelo Estado na Junta Comercial de São Paulo. Os projetos analisados constam no portal da Fusp.

Questionada se há direcionamento para a formação de empresas para garantir contratos, a Technomar negou. Também refutou que haja pagamento de comissões a docentes que coordenam projetos. “As empresas GPR e Technomar não têm qualquer repasse, distribuição ou qualquer outra forma de transferência de recursos para professores”, ressaltou. “Existe (na USP) uma política de incentivo a empresas, nas quais os alunos desenvolvem, junto ao mercado, as tecnologias que estão em suas pesquisas. A Technomar atua desta maneira.” Nenhum representante da TMTG foi encontrado para comentar.

Laboratório localizado na Poli, o TPN contou, em 2002, com financiamento da Petrobrás de R$ 9 milhões para sua construção. A Petrobrás define o Tanque de Provas Numérico como um importante laboratório de pesquisa experimental sobre sistemas navais e oceânicos, que produz informações para solução “dos mais diversos problemas de nossa indústria”.

‘Regras claras’. A direção da Poli informou que tem conhecimento de todas as iniciativas de seus docentes “que promovam o desenvolvimento científico e tecnológico” e estejam dentro das normas da universidade.

Segundo a unidade, um convênio de 2012 oficializado com a reitoria “define regras claras e objetivas para que empresas formadas por alunos e pesquisadores possam atuar em parceria com o TPN em projetos acadêmicos e tecnológicos”. 

A unidade defendeu ainda os professores envolvidos com trabalhos da FUSP. “Os professores Kazuo Nishimoto e Eduardo Aoun Tannuri são verdadeiras joias da Poli”, informou em nota. Os dois docentes foram procurados, mas não retornaram.

De 2009 a 2015, a Petrobrás assinou com a USP, tendo a Fusp como interveniente, 84 contratos, que totalizaram R$ 93,7 milhões. Atualmente, 33 projetos estão em andamento.

“A USP é um dos mais relevantes parceiros da Petrobrás nos mais diversos temas de sua cadeia de valor.” Segundo a empresa, a parceria com USP com a intermediação da Fusp é “uma conveniência da USP, não sendo, portanto, escolha da Petrobrás”. 

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