Wilton Junior/AE
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Pescadores são salvos após 22 dias no mar

Buscas já haviam sido suspensas e alguns barcos até teriam evitado resgatá-los

Tiago Rogero / RIO, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2011 | 00h00

Foram 528 horas no mar, sem destino, sem comida, sem água e com muito frio. Na maior parte desse tempo, só havia água salgada em volta e urina para beber. Ninguém acreditava que voltariam, muitos optaram por não resgatá-los e até a Capitania dos Portos suspendeu as buscas. Mas, desaparecidos há 22 dias, seis pescadores capixabas foram resgatados na segunda-feira no Sul do Brasil.

Eles haviam saído de Cabo Frio, na Região dos Lagos, em 27 de maio, e foram encontrados, desidratados, próximo da divisa entre Santa Catarina e Paraná, a 220 km da costa e mais de 500 km do Rio. Foram resgatados por um navio mercante italiano que atendeu ao pedido de socorro emitido pela Marinha.

A embarcação Marola, com cerca de 20 tripulantes, havia deixado Rio Grande (RS) com destino a Trinidad e Tobago. Os italianos, segundo o comandante da Capitania dos Portos, capitão Walter Bombarda, desviaram do curso para resgatar os náufragos e trazê-los ao Rio. O navio levou os pescadores até um posto da Marinha próximo da Ponte Rio-Niterói, de onde foram buscados, de lancha, por militares da Capitania e dos bombeiros.

Na base, familiares aguardavam ansiosos. A lancha chegou e os sobreviventes foram levados, um a um, para as ambulâncias. Três precisaram de macas; os demais caminhavam com dificuldade. O mais velho, Gilnei da Silva, de 56 anos, foi o último a sair - e dispensou a maca. "Passei muito frio. Ficava na parte de baixo do barco para esquentar", disse.

O mais novo, Maicon Lima, de 24 anos, lembrou dos dias difíceis à deriva: "A comida acabou, a água. Tivemos de beber urina." Segundo ele, barcos que foram avistados pelo grupo não prestaram ajuda. "Mesmo assim, não perdemos a esperança." Sentada na ambulância, abraçada ao filho e chorando, a mãe de Maicon, Maria das Graças, de 53 anos, disse que, no que depender dela, o jovem nunca mais vai pescar.

"O que mais limita a sobrevivência é a água salgada. Ela é predatória à fisiologia humana, não dá para beber. Não hidrata, pelo contrário. Há também a desorientação mental depois de 3 a 5 dias. Mas o pior é quando não restam comida e água, é quando acaba a esperança. Felizmente, eles não desistiram de viver", disse o comandante Bombarda.

Viagem. Os pescadores deixaram Itaipava (ES) em 16 de maio com destino a Cabo Frio. No dia 27, já na cidade fluminense, embarcaram novamente. Em 1.º de junho, depois de cinco dias coletando iscas perto da costa, foram para o mar aberto, de onde planejavam voltar no dia 9.

A Capitania dos Portos abriu inquérito administrativo para apurar o que aconteceu com a embarcação. Caso encontre alguma irregularidade, o processo pode resultar em sanção administrativa, multa e até cassação da licença do mestre.

O barco, uma traineira de 12 metros, comprado há oito anos e com a documentação em dia, foi deixado para trás pelo navio mercante. Segundo os sobreviventes, o motor "quebrou". Indagado se a embarcação já tinha apresentado algum defeito, o dono, Pedro Gilson, de 50 anos, disse que "problemas sempre acontecem". "E estamos sempre consertando. Foi uma fatalidade. No dia 8 houve um vento forte, mar alto, uma ressaca e isso pode ter provocado o problema." Gilson tinha um contrato pelo qual, ao fim de cada viagem, os lucros com a venda do peixe eram divididos igualmente.

2 PERGUNTAS PARA...

David Zee, oceanógrafo e professor da UERJ

1. Como a localização do barco, ao Sul do Brasil e a 500 km do local onde foi visto pela última vez, pode ser explicada?

A região de Cabo Frio conta com uma peculiaridade em relação ao litoral brasileiro. Sua plataforma continental é muito estreita. Podemos dizer que a praia fica "funda" mais rápido. A plataforma de Cabo Frio chega a ser 10% do que temos no Nordeste, por exemplo. Sendo assim, a uma distância de 90 km (onde fizeram o último contato), já estavam na área de atuação da Corrente do Brasil, que tem justamente a direção norte-sul, o que explica o fato de terem sido encontrados próximo de Santa Catarina e Paraná.

2. A ressaca de 8 e 9 de julho também interferiu?

Contribuiu também. Possivelmente, a ressaca ocorreu exatamente no momento em que perderam o motor e ficaram à deriva.

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