Perto da PM e do TJ, cracolândia da Praça da Sé cresce

Usuários consomem crack livremente na área até durante o dia; concentração começou a se formar após ocupação policial na Luz

TIAGO DANTAS, O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2013 | 02h04

Uma nova cracolândia está instalada no marco zero da capital paulista, a Praça da Sé. Cerca de 60 dependentes químicos usam drogas a poucos metros de bases da Guarda Civil Metropolitana, da Polícia Militar e do prédio do Tribunal de Justiça, parceiro do governo do Estado no programa de internação compulsória que começou anteontem.

Os usuários de drogas costumam ficar na frente de um prédio abandonado, perto do acesso à Avenida Rangel Pestana. Além de abrigar a Catedral Metropolitana, a praça também é o endereço de escritórios de advocacia e de dezenas de lojas.

A concentração de viciados em crack nas redondezas da Praça da Sé começou a aumentar, segundo comerciantes, após a ocupação policial na cracolândia - a Operação Centro Legal, que começou em 3 de janeiro do ano passado. Uma nova movimentação de pessoas teria levado mais gente à Sé a partir de dezembro.

"No ano passado, dava para encontrar noias no Largo São Francisco, na Rua Benjamin Constant, na José Bonifácio... De uns tempos para cá, estão todos na Sé", diz o advogado Airton César Domingues, diretor da Ação Local Praça da Sé. "À noite, a coisa fica ainda pior: um grupo de usuários de drogas que passa o dia no Parque Dom Pedro sobe para a Sé. Eles dizem que é mais seguro." Domingues lamenta que a internação compulsória não possa ser usada para internar os usuários de drogas, já que ela só é indicada para casos extremos, de risco imediato.

Briga. Comerciantes afirmam não ter notado aumento de roubos e furtos na região, mas relatam constantes brigas entre os usuários de drogas.

Por volta das 10h30 de ontem, um homem agrediu um garoto aparentemente drogado. Como o menino não saiu do lugar, como queria o homem, o agressor o carregou até outro ponto da praça. A criança tentou resistir, mas não conseguiu se soltar. Depois de ser deixado no chão, acabou dormindo. Nenhum usuário de drogas questionado pelo Estado quis explicar a agressão.

Os pedestres evitam circular pela calçada onde a maioria dos viciados passa o dia. "Eles tomaram conta de tudo. Aquele pedaço virou o território deles. Quando saio do metrô, prefiro passar do outro lado do jardim para não correr risco", diz o vendedor Ricardo Loreto, de 27 anos, que trabalha em uma papelaria na Sé.

Duas garis que faziam a varrição da praça ontem à tarde disseram que têm dificuldade para limpar a calçada no ponto tomado pelos viciados. "Eles nunca mexeram comigo. Mas a gente nunca sabe. É muito noia. Tenho medo de passar lá", disse uma das funcionárias, que pediu para não ter o nome divulgado.

A Guarda Civil Metropolitana informou que orienta os usuários de crack a buscar equipamentos públicos disponíveis para tratamento. "Os guardas também realizam a proteção dos agentes municipais de saúde e assistência social que trabalham na região", informou a GCM.

APM afirmou que usa bases, viaturas e policiais a bicicleta para fazer o policiamento preventivo e ostensivo nas imediações da Sé. "Os dependentes químicos tem o direito de ir, vir e permanecer nos logradouros públicos", informou a corporação, em nota. Denúncias de tráfico de drogas podem ser feitas pelos telefones 190, 181 ou 153.

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