Primeiro dia de desfiles em São Paulo teve 'apagão' e homenagens

Rosas de Ouro empolgou público no Anhembi; em entrevista, prefeito Fernando Haddad disse que o carnaval de rua é mais lucrativo do que os desfiles

Rafael Italiani, O Estado de S. Paulo

06 Fevereiro 2016 | 01h25

SÃO PAULO - Piratas do Caribe na Ilhabela, leds apagados em alegoria de comissão de frente, um apagão dos refletores do Anhembi e atrasos no desfiles marcaram a primeira noite do Grupo Especial de São Paulo.

De acordo com a Prefeitura, o evento da Liga Independente das Escolas de Samba tem aporte de R$ 34 milhões e gera R$ 250 milhões. O prefeito Fernando Haddad (PT) chegou a comentar na abertura dos desfiles no Sambódromo que os blocos deste ano tem potencial para levantar R$ 400 milhões com investimento de R$ 10 milhões. "Gera mais atividade econômica, são mais dias de bloco. O Carnaval de rua era praticamente inexistente. Gera emprego, comercialização de produtos e mantém a rede hotelerira ocupada em uma cidade que se esvaziava nessa época", disse o petista.

Apesar dos imprevistos, as escolas Rosas de Ouro e Águia de Ouro conseguiram empolgar o público no sambódromo.

A Roseira, com um enredo sobre tatuagem, "Arte à Flor da Pele. A Minha História vai Marcar Você", tem chances de conseguir mais um título. O último foi em 2010. A agremiação tatuou os 2.700 integrantes com 10 mil tatuagens temporárias. No refrão, copiou a Menino do Rio, de Caetano Veloso, cantando "dragão tatuado no braço". A escola começou a contar seu enredo a partir das pinturas rupestres, com um carro cheio de homens das cavernas. Ao longo da passagem pela avenida outras surpresas surgiram como: a bateria vestida de marinheiro e o último carro repleto de integrantes com tatuagens de verdade. A empresária Aline Cândido, de 29 anos, tem um estúdio e se diz "fã de rock'n roll". Foi a primeira vez que ela desfilou. "Eu prefiro outro tipo de música, mas me diverti bastante. As tatuagens são a minha segunda pele", contou Aline, que já perdeu as contas de quantos desenhos no corpo fez desde a primeira tatuagem, quando tinha 16 anos. Apesar de ter empolgado o público, a escola correu. O folião do Anhembi que parou para olhar no celular e postar uma foto no Instagram deixou de ver a passagem de alas e carros alegóricos. A Rosas de Ouro fez o desfile em 61 minutos, quatro antes do tempo limite. Mas a presidente Angelina Basílio comemorou. "Foi melhor do que a gente esperava. Esse ano vamos voltar levantar a taça."

Já a Águia de Ouro, da Pompeia, zona oeste da capital, apresentou a mulher não como objeto da sensualidade mas valorizando o empoderamento feminino. A comissão de frente trouxe apenas mulheres e tinha um carro de apoio, chamado de tripé, com um caldeirão. Para a surpresa do público, dele saia uma integrante vestida de Nossa Senhora. Mas a alegoria complementar apresentou problema que foi visto por todo o Anhembi. A iluminação de led do carro deixou de funcionar. E ficou assim do início do desfile até o final. Mesmo com a falha, a terceira agremiação a entrar na avenida foi a primeira a ter aplausos empolgados de um público, que até então ainda estava morno. "A gente sai com sentimento de dever cumprido. Todas as escolas que vem aqui nenhuma é perfeita e cometem erros, mas fizemos um bom desfile", afirmou Sidnei Carriuolo, presidente da agremiação que teve como ponto alto uma ala teatral que encenou a Paixão de Cristo e o sofrimento de Maria.

A Unidos de Vila Maria costuma fazer desfiles grandiosos e bonitos. Mas não foi o caso da edição do Carnaval de 2016. Ao falar sobre Ilhabela, em um enredo patrocinado pelo município, a escola colocou piratas que não eram do Brasil, mas do Caribe. Os integrantes foram questionados na dispersão. "Tinha Jack Sparrow, mas na verdade o carro com os piratas é um navio-fantasma. Muitos barcos naufragaram naquela região", contou Alejandro Fazzi, de 38 anos, que é argentino e vive há 14 no País. Ele ficava flutuando sobre as arquibancadas do Anhembi e quem o puxava era o universitário Henrique Muller. "Ele pode confiar em mim, apesar da rivalidade não ia deixar ele cair."

A Escola Nenê de Vila Matilde, da zona leste, apostou em uma homenagem à atriz Cláudia Raia pelos 30 anos de sua carreira. O desfile foi aberto por um grupo de bailarinas e bailarinos que simularam a infância de Claudia, que apaixonou-se pela dança logo cedo.

O circo, que foi grande parte da vida da atriz, teve importância crucial no espetáculo. Palhaços, dançarinos com pernas de pau e equilibristas tomaram boa parte do desfile. Mas nem todos conseguiram chegar até o fim: a reportagrm constatou que um dos "pernas de pau" parou no meio do caminho por um problema no equipamento. 

Uma outra ala do desfile lembrou ainda os principais papéis da atriz na televisão. 

A atriz desfilou emocionada e disse nunca esperar uma homenagem como esta. À Rede Globo, disse ter "explodido de emoção".  Também participaram da apresentação os filhos da atriz Enzo e Sophia.

A Gaviões da Fiel foi a penúltima escola a entrar na avenida. Com tema subjetivo no enredo "É Fantástico! Imagine, Admira e Sinta", o desfile da escola do Corinthians foi protocolar. Os carros grandes e as alas coloridas apostaram em temas batidos como o filme Avatar, já utilizado por outras escolas e desfiles anteriores. Como de costume, os membros da agremiação atiraram bandeiras para as arquibancadas recheadas de sinalizadores. Os fogos são proibidos dentro do estádio. A torcida das arquibancadas levou a escola nas costas. 

A Acadêmicos do Tatuapé foi a última escola do primeiro dia do Grupo de Acesso. Embora desfilando à luz do dia e com as arquibancadas vazias, a agremiação conseguiu contagiar o público que, além de vibrar, cantou o samba-enredo em homenagem a escola carioca Beija Flor de Nilópolis. Os princiais títulos da agremiação do Rio, carros alegóricos polêmicos como o Cristo Redentor coberto de preto foram relembrados assim como o famoso carnavelesco Joãosinho Trinta. A Tatuapé apostou em cores vibrantes para contrastar com o o nascer do sol. O grande desafio deste ano era conseguir encerrar o desfile dentro do horário, pois a escola foi penalizada no ano passado por estourar o tempo. 

"A gente se preparou pois sabíamos que íamos fazer o melhor Carnaval de nossa história", disse o presidente da agremiação, Eduardo dos Santos. /colaborou Luiz Fernando Toledo

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