Pernambuco diz que confessou assassinato sob tortura policial

Julgamento do principal suspeito de matar Felipe Caffé deve durar dois dias; ele nega assassinato e estupro

Camilla Rigi, Estadão

07 de novembro de 2007 | 14h21

O advogado de Paulo César da Silva Marques, o Pernambuco - acusado de envolvimento no assassinato do casal de namorados Liana Friedenbach e Felipe Caffé, mortos em 2003, informou, nesta quarta-feira, que seu cliente mudou sua versão dos fatos. Desde o final da manhã, Pernambuco está sendo julgado na Câmara Municipal de Embu Guaçu.   Segundo Bernardo Campos Carvalho, advogado de Pernambuco indicado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seu cliente negou que tenha atirado em Felipe e que tenha estuprado Liana. Segundo a defesa do acusado, apontado pela promotoria como o principal suspeito de ser autor do disparo na nuca que matou Caffé, ele teria confessado a autoria do tiro e o estupro a Liana sob forte pressão e tortura cometidos pela polícia.   Carvalho admite que o cliente tem participação no crime, mas garante que o papel dele foi muito menor. "O depoimento dele foi confuso, porque meu cliente é um homem do mato, não acostumado a um plenário, microfone. Queremos que ele seja acusado pelo crime que cometeu. Na tréplica, pretendo apresentar fatos novos que vão mudar os rumos do julgamento", adiantou o advogado.   Para o promotor Norberto Jóia, os fatos novos prometidos pela defesa não devem mudar o rumo do caso. Por volta do meio dia, o julgamento foi suspenso e voltou às 14h15, para a leitura das peças - o processo todo tem 11 volumes e mais de 5 mil páginas, algumas devem ser lidas tanto a pedido da defesa quanto da acusação. A expectativa é que o julgamente termine apenas na quinta-feira.   Família indignada   Indignado com a demora para o desfecho do caso, o pai de Liana, Ari Friedenbach, chegou bem cedo à Câmara Municipal de Embu Guaçu, onde ocorre o julgamento. Ele criticou o sistema de Justiça brasileira por conta de recursos de advogados de Pernambuco para protelar o julgamento. "É difícil reviver tudo isso de novo. Tudo poderia ter sido resolvido no julgamento do ano passado", diz.   Pernambuco é acusado de ter efetuado o disparo na nuca que matou Felipe Caffé. Muito abatido, o pai do estudante chegou às 9h30 ao julgamento. "Eu não sei qual será a minha reação quando ficar frente-a-frente com o assassino do meu filho. Não sei como vou reagir", afirmou pouco antes de entrar na Câmara.     Roberto Aparecido Alves Cardoso, conhecido como "Champinha", principal acusado do crime e não julgado por ser menor de idade à época, está recolhido em uma unidade de saúde da Fundação Casa (Ex-Febem), desde o dia 3 de maio de 2007, conforme determinação do juiz do Departamento de Execuções da Infância e da Juventude do TJSP.   Em julho de 2006, três dos demais envolvidos no crime foram condenados por Júri Popular a mais de 169 anos de prisão. Agnaldo Pires a 47 anos e três meses de reclusão por estupro; Antonio Caetano da Silva a 124 anos por vários estupros; e Antonio Matias a seis anos de reclusão e um ano, nove meses e 15 dias de detenção por crime de cárcere privado, favorecimento pessoal, ajuda à fuga dos outros acusados e ocultação da arma do crime.   O crime   O crime aconteceu no dia 31 de outubro de 2003, uma sexta-feira, quando os namorados Liana Friedenbach, de 16 anos, e Felipe Silva Caffé, de 19, saíram para acampar sem que seus pais soubessem. Ela disse à família que viajaria com alguns amigos. Os pais da garota desconfiaram quando Liana não voltou para casa no domingo, 2 de novembro.   Avisada do sumiço do casal, a polícia descobriu que os jovens foram vistos em Embu-Guaçu. Depois de mais de uma semana de buscas, a polícia localizou os corpos dos dois, a partir de informações de um menor preso. Identificado como Champinha, o menor admitiu ter participado do crime. Felipe foi morto com um tiro na nuca e seu corpo estava num córrego. Antes de ser morta, Liana ficou quatro dias em poder dos criminosos e sofreu abuso sexual.   Três acusados do seqüestro e morte do casal de namorados já foram condenados a penas que variam entre 7 e 124 anos de prisão. Antônio Caetano da Silva pegou 124 anos por auxílio no seqüestro do casal e no estupro da menor assassinada. Agnaldo Pires, acusado de estupro da jovem, foi condenado a 47 anos e 3 meses de prisão. Antônio Matias de Barros foi condenado a 7 anos e 9 dias pela acusação de seqüestro, porte de arma e favorecimento pessoal. Pelo atual código penal Agnaldo Pires e Antônio Caetano devem cumprir no máximo 30 anos de reclusão.   O quinto envolvido no caso é Champinha, tido como o líder da quadrilha e mentor do crime. Na época, ele tinha 16 anos. Por ser menor, foi para a Febem, atual Fundação Casa. Laudos médicos constataram que ele sofre de problemas mentais e não pode voltar a viver em sociedade. Por isso, foi feito o pedido de interdição em um estabelecimento específico.

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