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Perito diz que só teve acesso a pavimento do Carandiru 12 dias após massacre

Terminou nesta segunda-feira o primeiro dia da terceira etapa do julgamento do massacre

Laura Maia de Castro, O Estado de S. Paulo

17 Fevereiro 2014 | 20h11

SÃO PAULO - A terceira etapa do julgamento do massacre do Carandiru teve início nesta segunda feira, 17, no Fórum criminal da Barra Funda, zona norte da cidade. Duas testemunhas de acusação prestaram depoimento.

O perito Oswaldo Negrini Neto foi a primeira testemunha de acusação a ser ouvida. O depoimento durou cerca de 1h40. Negrini relatou que, no quarto e no quinto pavimento, não havia nem 10% dos vestígios encontrados nos outros andares. Especificamente no quarto, Negrini afirmou que só havia vestígios em uma única cela (9416E). Ele destacou que só acessou o quarto pavimento 12 dias depois do massacre.

O perito descreveu para o júri o estado em que o nono pavilhão foi encontrado. "As cenas eram marcadas por uma violência descabida", disse. O perito mais uma vez ressaltou que o local não foi preservado para a perícia e que havia sido proibido de realizá-la. Ao conseguir entrar, de acordo com Negrini, ele pôde constatar que a maioria dos disparos tinham sido feitos da porta para dentro da cela. "Mais de 80% dos vestígios mostrava que os disparos foram feitos da entrada das celas", disse.

Acerto de contas. O diretor de Segurança e Disciplina do Carandiru, Moacir dos Santos, depôs por 1h15. Santos disse que antes da chegada da PM não tinha ouvido nenhum barulho de tiro e afirmou que, quando deixou o pavilhão com os outros funcionários, os detentos estavam armados com facas improvisadas. "Ficamos quase uma hora dialogando com os presos. Não tinha nada contra a administração. Não chamo de rebelião, chamo de acerto de contas."

O então diretor de segurança afirmou que policias da Rota entraram no pavilhão atirando sem diálogo. "Os primeiros presos fuzilados estavam lá embaixo, nem estavam participando da briga. Eles corriam para se render e eram atingidos, caindo até mesmo próximo de nós", disse.

De acordo com Santos, ao entrar no pavimento por volta das 19 horas, todos os presos que sobreviveram estavam nus no pátio e alguns eram recrutados pela PM para ajudar no que ele chamou de "limpeza" nos pavimentos. Segundo ele, esses presos arrastavam os outros para o segundo pavilhão. "Ouvimos várias rajadas durante a limpeza. Foi aí que percebi que eles estavam fuzilando aqueles que faziam o carregamento dos corpos. Quando percebi, falei com juiz e começamos a anotar o nome dos presos que subiam, senão não ia ter ninguém para contar", disse.

Ao todo, 15 policiais serão julgados pela morte de oito detentos que estavam no quarto pavimento (3º andar) da antiga Casa de Detenção do Carandiru. Na terça feira, vão ser ouvidas duas testemunhas arroladas pela defesa.

 

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