Bruno Ribeiro/Estadão
Bruno Ribeiro/Estadão

'Perdi minha filha e minha esposa de uma vez só. Quero a minha família de volta'

Acidente de ônibus em Campos do Jordão deixou pelo menos 10 mortos e mais de 50 feridos

Ana Paula Niederauer e Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2019 | 15h53

Seis corpos foram reconhecidos após acidente de ônibus que deixou pelo menos 10 mortos e 51 feridos na noite deste domingo, 9, na rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro (SP-123), em Campos do Jordão. O caso ocorreu  logo após o trevo de acesso a Santo Antônio do Pinhal, altura do km 31.

As vítimas foram levadas para o Instituto Médico Legal (IML) de Taubaté. Os corpos são do auxiliar administrativo Yago Mange, de 25 anos, da vendedora de cosméticos Jaqueline Rodrigues Fernandes, de 26 anos, de Luzia Aparecida de Alencar, de 32 anos, e sua filha Júlia Correai dos Santos, de 3 anos, Camilla Rodrigues da Silva, Doriedson Ferreira da Silva, de 46 anos e  Maria Ivonete Marcolino Ferreira da Silva, de 41. Todos eram ocupantes do ônibus.

Além delas, o contador Joziel Dourado Neto, de 33 anos, e sua filha Manoela Maciel Dourado, de 4, que estavam em um dos carros atingidos pelo coletivo, tambem já foram reconhecidos por parentes.

A Polícia Civil evita cravar hipóteses para explicar a tragédia. Com cautela, o delegado José Antônio de Paula Gonçalves, titular da Delegacia Seccional de Taubaté, que concentrou as investigações do caso, diz que irá esperar os laudos periciais já solicitados antes de apontar as causas.

Vítimas planejaram passeio durante meses

Osvaldi dos Santos, de 35  anos, perdeu no acidente a esposa Luzia e a filha Júlia. Ele disse que a família planejou a viagem há dois meses e que estavam muitos felizes com o passeio. "A gente estava muito feliz ontem.  Meu Deus do céu! O que vou fazer da minha vida agora? Perdi minha filha e minha esposa de uma vez só. Quero a minha família de volta", lamentou Santos.

Segundo a tia de Julia, Elaine Martins, os três saíram felizes com a viagem. "Na hora do acidente, minha sobrinha abraçou a filha. Ela quebrou a clavícula e a coluna. Minha sobrinha disse que a moça da excursão falou que o motorista estava sem freio de mão", disse Elaine.

Passageiros que estavam no ônibus contam que o veículo ficou desgovernado. "Foi tudo muito rápido. O ônibus ficou desgovernado e em alta velocidade. Tombou e saiu arrastando os carros", disse João Carlos Rodrigues, de 53 anos, estava com a esposa Ediluzia dos Santos, de 48 anos. Rodrigues recebeu alta médica após sofrer cortes na cabeça. A esposa continua internada no Hospital Regional do Vale do Paraíba, em Taubaté. 

A auxiliar de serviços gerais Maria Cícera Vieira da Silva, de 49 anos, foi reconhecer o corpo do marido, o motorista Ivan Francisco da Silva, de 42. Era ele quem dirigia o ônibus. Maria contou que o marido havia saído de casa por volta das 6h e que ele não era funcionário registrado da empresa dona do ônibus.

"Ele fazia um bico. Tinha arrumado um emprego fichado (registrado na carteira de trabalho) em uma empresa da Petrobrás em Cubatão. Mas já tinha combinado (com a empresa de ônibus), e não quis deixar eles na mão", contou. Por aplicativo, os dois mantiveram contato ao longo do dia e, por volta das 18h, ele disse que a viagem era "puxada", mas que ele estava para voltar. "Fizemos chamada de vídeo", lembrou. "Ele visualizou a última mensagem às 20h53". A viagem de volta começou às 21h.

Maria Cícera contou ainda que dirigir na estrada "era a paixão" do motorista, e que ela mesmo já havia viajado no mesmo ônibus que se acidentou. "Comecei a ver as notícias do acidente. Quando vi a foto do ônibus no Facebook, deu pra ver a mão dele, com a aliança. Aí reconheci", disse a auxiliar, aos prantos.

O casal de namorados Maria Clara Rodrigues Guerra e Marcelo Rosa Gonçalves, ambos com 19 anos, foi comemorar o aniversário da avó de Maria Clara, Hélia Fernandes Pereira, em Campos do Jordão. 

Os estudantes contam que estavam em um grupo familiar de dez pessoas para comemorar os 83 anos da avó. Júnior disse que ele e Maria Clara  estavam dormindo quando ocorreu o acidente.

"Eu acordei com uma gritaria, gente chorando e o ônibus tombando. Estava do lado da janela e percebi o asfalto no chão. Ralei a cara no asfalto, a mão e o braço", explicou Júnior.

Maria Clara, que teve cortes na cabeça,  disse que três pessoas da família, a tia, irmã e a avó, tiveram ferimentos mais graves.

Em Taubaté, no fim da tarde, nove pessoas continuavam hospitalizadas.

Delegado irá esperar laudos

O delegado seccional de Taubaté, José Antônio de Paula Gonçalves, afirmou que vai esperar os laudos periciais do ônibus, dos carros e da rodovia onde ocorreu o acidente na noite desde domingo, 9, antes de apontar possíveis causas para a tragédia, que matou dez pessoas. 

"Nesses casos, o laudo conta mais do que qualquer outra coisa", diz o delegado. 

Os exames periciais no local do acidentes foram feitos ao  longo da madrugada. Nos veículos, começariam a ser feitos ainda nesta segunda. 

O delegado contou que, nesta manhã, os trabalhos policiais se concentraram na identificação dos corpos e contato com familiares. "Ainda estamos identificando os nomes de todos os feridos", disse. "A gente estava trabalhando com 52, mas parece que são 61 (os machucados)", afirmou Gonçalves. "Temos informações que alguns deles estão em estado grave", afirmou. 

O inquérito policial que vai investigar o acidente será conduzido pela delegacia de polícia de Pindamonhangaba, cidade da região. "Como muitas das vítimas são de longe, do litoral, elas devem ser ouvidos por carta precatória, não vão precisar vir até aqui", disse o delegado. "É claro que vamos ouvir também os donos da empresa que era dona do ônibus, uma vez que o motorista está entre os mortos", disse o delegado.

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