'Perdi a guarda da minha filha e caí na droga'

O desafio do vício, 3 meses após ação na cracolândia. Consumo de droga não acabou nem venda foi eliminada no centro da capital, mas centenas de usuários aceitaram tentar mudar de vida.

ADRIANA FERRAZ, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2012 | 03h03

"Foi por causa da polícia que acabei na cracolândia. Parece mentira, mas foram as notícias sobre a ação que me atraíram para lá. Era 17 de janeiro, e eu tinha acabado de perder a guarda da minha filha mais velha. Saí do Fórum de Ferraz de Vasconcelos, onde vivia, peguei o ônibus e fui direto. Depois de um mês, saí sem nada, direto para o hospital."

A., de 31 anos, completa hoje um mês e nove dias de internação. Está limpo, a muito custo. Na primeira semana, ficou isolado dos demais pacientes, em crise profunda de abstinência. "Tinha alucinações. Achava que tinha um cachimbo em uma mão e uma pedra na outra. Nunca tinha sentido aquilo. Era muito real e dolorido", diz.

Da cracolândia, afirma que tem medo. "Lá, você é rei se tem dinheiro. Quando acaba, vira um lixo e entra para o submundo. E isso acontece de uma hora para a outra. Não dá nem para perceber. Quando me vi, tinha virado mais um zumbi. Só me sobrou uma bermuda e um chinelo."

No fundo do poço, depois de emagrecer 10 quilos, ligou para a família e recebeu a visita da irmã. "Ela quis conhecer a cracolândia. Disse que precisava saber onde iria buscar meu corpo quando eu morresse. Foi de óculos de sol, para esconder as lágrimas. E implorou pela minha recuperação", conta.

Na hora, A. não se entregou. Continuou naquela vida, até que o corpo não aguentou mais. "Fui até o AMA Boraceia (na Barra Funda, zona oeste) e pedi para ser internado. Por mim, ficava um ano aqui, me preparando. Ainda estou inseguro. Quero que seja tudo diferente dessa vez. Não quero ver minha mãe chorando. Nem a minha irmã."

Para quem tenta vencer o vício, o futuro é planejado a conta-gotas. "Não dá para acelerar. Mas dá para sonhar. Quem sabe um dia a cracolândia não acaba de vez." / A.F.

Ele deixou o crack há exatos 85 dias. Foi pouco depois da chegada da Polícia Militar à região conhecida como cracolândia, no centro da capital paulista. Depois de amanhã, dia 3, a operação completa três meses de sucessos e fracassos. O consumo da droga não acabou nem a venda foi totalmente eliminada. Mas centenas de usuários aceitaram enfrentar o vício. W., de 39 anos, faz parte da lista.

Ele foi internado por vontade própria, depois de receber uma ajuda inesperada. "Uma senhora chamou uma equipe do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) para me atender. Acho que ela ouviu sobre o crack na televisão e percebeu que eu precisava de tratamento. Já fazia 15 anos que lutava contra essa doença. Estava cansado, não aguentava mais viver na fissura, com um pedaço de papelão debaixo do braço", conta.

W. não era exatamente um frequentador da cracolândia. Preferia andar sozinho a se enturmar com os "zumbis" da rua. Trabalhava de dia para juntar dinheiro e usar pedra à noite. Diz que nunca roubou e garante que agora só tem um desejo: seguir em frente, limpo, para reconquistar os filhos, a mulher e a mãe. A família mora na Bahia, de onde saiu para vencer o crack.

"Vim com isso na cabeça. Queria fugir da vida que levava lá. Mas, no caminho, encontrei tanta pedra que cheguei aqui ainda mais viciado. Deus está me dando uma segunda chance, que só consigo perceber hoje, depois de quase três meses de tratamento. Aprendi que não adianta só orar ou participar de reuniões. Precisava de remédio mesmo, para aprender a me controlar. E assim vou indo."

No início, o tratamento foi visto com desconfiança. Até as primeiras três semanas, a sensação de abstinência leva à desistência até 40% dos pacientes, segundo a Prefeitura. A coordenadora municipal de Saúde Mental, Álcool e Drogas, Rosângela Elias, diz que o processo de desintoxicação é o mais difícil. "Normalmente, quem supera esse período aceita a internação pelos três meses indicados", diz.

Vícios. A Prefeitura oferece 394 vagas, a maioria em comunidades terapêuticas conveniadas. Desde o dia 3 de janeiro, quando a polícia ocupou a cracolândia, até sexta-feira, 409 pessoas haviam sido internadas na operação. Na única clínica municipal, chamada de Serviço de Atenção Integral ao Dependente (Said), o usuário de crack enfrenta ainda mais um desafio: largar o cigarro. O ambiente, livre de tabaco, proíbe qualquer droga.

Para esquecer os vícios, só ocupando a cabeça com atividades terapêuticas e profissionalizantes. No Said, W. faz aulas de informática e sonha conseguir um emprego na área quando receber alta da clínica. Depois de quase três meses internado, o grande dia está próximo.

"Vou para a casa do meu irmão. Ele mora em Barueri e prometeu me ajudar. Quero recuperar o tempo perdido, ganhar dinheiro e alugar uma casa para poder receber a minha mãe. Vou pedir perdão a ela e, depois, só vai faltar mais uma coisa: sabe aquela senhora que me ajudou? Quero muito agradecer. Ela nem sabe o que fez por mim."

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