Epitacio Pessoa/AE
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‘Pensei que um boeing tivesse caído’, diz testemunha do incêndio em Embu

Incêndio provocado por explosão em empresa química deixa cinco feridos, três em estado grave

Denize Guedes, de O Estado de S. Paulo,

30 Julho 2011 | 12h13

Fios da rede elétrica caídos ao chão. Blocos de um extenso muro de concreto espalhados pela rua. Fileiras de árvores com troncos e galhos retorcidos na calçada cheia de lama. Mangueiras d’água emaranhadas no intuito de conter o fogo do lado de dentro. Esse era o cenário na madrugada deste sábado, 30, no número 1.017 da Estrada de São Judas, em Embu das Artes, na Grande São Paulo – endereço da empresa de comércio e distribuição de produtos químicos Oldflex, palco de um incêndio de grandes proporções iniciado com a explosão de um de seus 13 tanques, por volta das 20 horas desta sexta.

 

Ainda sem causa conhecida, o fogo deixou cinco empregados do local feridos com queimaduras de segundo e terceiro graus. Três deles estão em estado grave e um, que teve parte do rosto desfigurado, corre risco de perder a visão. Ao todo, o tanque principal, com capacidade para mais de 900 litros, um caminhão-tanque (15 mil litros) e outros sete tanques menores teriam sido atingidos pelas chamas. Por volta das 4 horas, o Corpo de Bombeiros já dava o incêndio por controlado.

 

Situada ao lado da Rodovia Régis Bittencourt, sentido capital, na divisa entre Taboão da Serra e Embu, a Oldflex teve rapidamente o líquido do tanque em que houve a explosão escoado para um córrego paralelo à rodovia (que chegou a ser interditada por duas horas). Assim, um rastro de fogo logo se estendeu por parte da margem da via até a área residencial vizinha de Jardim Mimás, do outro lado da Régis Bittencourt, por meio das tubulações de esgoto. “Minha mãe começou a arrumar as coisas para a gente ir embora de casa”, disse I.M, de 14 anos. “Deu medo de morrer.”

 

Os 23 caminhões e mais de 70 homens do Corpo de Bombeiros, acionados para a ocorrência, chegaram a tempo de controlar com rapidez o rastro de chamas. Ele estava praticamente extinto no Jardim Mimás por volta das 22h15. O odor de produto químico, porém, continuava a tomar conta de vias do bairro – era possível ver o líquido misturado à água escorrendo pelas ruas íngremes do local. “O cheiro é muito forte”, reclamava o cobrador de ônibus Adaugizo Alves da Cunha, de 59, com um lenço sobre o nariz. Entre os produtos comercializados pela Oldflex, estão diferentes tipos de álcool e de acetato.

 

No coração do incêndio, porém, no Jardim das Oliveiras, cinco tanques ainda estavam em chamas às 22h50, enquanto os demais eram resfriados para evitar risco de uma nova explosão e início de novos focos. “Quando vi as chamas, pensei que um Boeing tivesse caído aqui”, disse o vendedor Edidelson Cruz, de 37, que abastecia sua moto no posto de gasolina do lado oposto da rodovia no momento da explosão. Já Maria Neide Cordeiro Souza, de 35, moradora do Jardim das Oliveiras, bairro da empresa, abandonou a casa após ouvir o estrondo. “Senti tremer tudo, veio uma quentura e fui embora”, contou.

 

Feridos – As cinzas que pairavam no ar quente só serviam para deixar a dona de casa Antônia Aparecida de Castro ainda mais apavorada. Às 23 horas, ela era um dos muitos parentes de funcionários da empresa e moradores da região que buscavam informações à beira da rodovia. “Mãe, se a senhora ouvir alguma coisa, não se preocupe, eu estou bem”, não se cansava de contar sobre a ligação que recebera do filho Clodoaldo algum tempo antes – ele e o irmão Kleber trabalhavam na empresa na hora da explosão. “Mas ele não ligou mais”, repetia agoniada e com lágrimas nos olhos.

 

Os filhos de Antônia, por fim, entraram em contato com a família no início da madrugada e passam bem. Os cinco colegas de trabalho feridos com queimaduras, no entanto, encontram-se no Hospital Geral de Pirajussara e no pronto-socorro municipal de Taboão da Serra. Eles foram levados por pessoas que resolveram ajudar antes mesmo da chegada dos Bombeiros e da Defesa Civil ao local – por isso, inicialmente, as autoridades não sabiam confirmar se haviam feridos. Depois, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ainda chegou a fazer resgates de pessoas com intoxicação leve.

 

A Defesa Civil isolou 60 residências do entorno para avaliar a possibilidade de risco aos moradores. Em paralelo, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) iniciou trabalhos de verificação de contaminação da área pelos produtos químicos. Já a AES Eletropaulo, que havia interrompido o serviço de energia elétrica no local para evitar que pegasse fogo na fiação, trabalhava para restabelecer o serviço.

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