Pendurar a conta do almoço? Só se for habitué

Restaurantes de SP mimam clientes vips com a possibilidade de poder pagar depois

Ana Bizzotto, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2010 | 00h00

 

 

 

Praticidade. Frequentadores assíduos do La Casserole, Puglieri e Pacheco pagam suas contas de 15 em 15 dias

 

 

  Bons tempos aqueles em que se podia comprar fiado na mercearia do bairro - e só pagar no dia de recebimento do salário. Essa relação de confiança entre comerciante e cliente, que à primeira vista parece ter ficado no passado, ainda é mantida por alguns restaurantes de São Paulo com seus clientes mais próximos.

No Sinhá, a tradição começou em 2006, seis meses após a abertura da casa. Cerca de 50 clientes fixos penduram a conta. "Eles assinam e voltam para pagar uma vez na semana, de 15 em 15 dias, ou mensalmente", conta o chef e proprietário, Julio Bernardo, de 36 anos. A prática funciona na base da confiança, "no fio do bigode". "Nunca tomei calote porque faço isso com o cliente que frequenta a casa há algum tempo. É preciso intimidade para abrirmos essa possibilidade", completa.

O pouco tempo que os clientes têm para almoçar, segundo Bernardo, o motivou a vender fiado. "O restaurante é muito movimentado e muita gente vem almoçar a pé durante a semana porque trabalha perto. Os executivos, principalmente, não têm tempo de esperar a conta vir na mesa e passar o cartão", explica ele. " São 15 minutos muito preciosos na correria diária."

Para o chef, o maior beneficiado é o cliente, que ganha esses minutos e uma relação mais próxima com o dono da casa. "Isso é muito difícil hoje em dia, porque quase todo mundo compra no supermercado e os restaurantes são cada vez mais impessoais", comenta.

Amizade à mesa. No La Casserole, a assiduidade dos comerciantes Victor Pacheco e Paulo Puglieri, frequentadores da casa há 15 anos, fez com que estabelecessem uma relação de amizade com a proprietária, Marie France Henry. Há seis meses, Pacheco pediu para pagar as contas duas vezes por mês, já que eles costumam almoçar ali quase todo dia. "Era mais prático passar o cartão a cada 15 dias. E não adianta querer dar o cano. Sou vizinho de bairro da Marie. Se não pagar, ela vai cobrar na minha casa", brinca Pacheco, de 52 anos.

A cada vez que Pacheco e Puglieri chegam ao restaurante, Marie prepara algo diferente, feito especialmente para eles e servido com o couvert. "Não é porque são vips ou gastam muito, é pela relação pessoal que se criou. Você começa a conhecer a pessoa, saber como ela está naquele dia", explica a restauranteur.

Um escritório de advocacia também paga de uma vez as contas diárias e um ou outro cliente habitué pede para assinar a conta de vez em quando, mas são raros. "Se uma pessoa cria essa proximidade e me pede, sempre vou fazer (fiado). Não vou desconfiar sem motivos", diz Marie.

No restaurante Tenda do Nilo, a regalia é apenas para quem frequenta o restaurante desde a inauguração, há 11 anos. "Às vezes pode ocorrer um problema com o cartão. Aí eu falo: "Habib, pode pagar depois." Eles se sentem em casa, falam que são tratados como reis", afirma Olinda Isper, de 49 anos, uma das proprietárias. Ela se orgulha do fato de alguns nem olharem o cardápio. "Você acaba criando uma amizade, eles se tornam parte da família. Não os considero clientes."

Freguês antigo da casa, o perito judicial Márcio Covello, de 39 anos, já pendurou a conta depois de tentar passar o cartão e descobrir que o sistema estava fora do ar. "Disseram para eu pagar depois, sem problema nenhum", diz Covello. "Mas a atitude tem de partir do dono do estabelecimento. Eu não pediria jamais."

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