'Pelé' dos mestres-salas vai à Sapucaí, aos 90 anos

Delegado, o único a só tirar notas 10, ganha homenagens pelo País e sai na Mangueira, 4ª escola a desfilar hoje

RIO, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2012 | 03h03

Bem antes de a Mangueira ser 17 vezes campeã do carnaval carioca, e de cativar a preferência de gente que não faz ideia de onde fica sua quadra, ele já estava lá. Esguio (1,92 metro, menos de 70 quilos), distinto e galanteador, como deve ser o bom mestre-sala, Hégio Laurindo da Silva nasceu em 1921, naquele morro. A fundação da escola da qual seria símbolo viria em 1928.

O nome de batismo não há quem reconheça. Já o apelido da adolescência grudou para sempre: Delegado, o que "prende" as meninas pela lábia. O bailado de criação própria, que lhe deu 36 anos consecutivos de notas 10 e foi incorporado pelos melhores das gerações seguintes, hoje é menos exuberante, e visto só em vídeos no YouTube. Do chão, ele há uma década passou ao alto do carro alegórico que reúne os baluartes.

Dia 29 de dezembro, os 90 anos do mestre dos mestres-salas, presidente de honra da Mangueira, foram festejados discretamente. Um bolinho comprado pela vizinha no supermercado, a criançada da rua a lhe cantar parabéns. Mas as homenagens, que lhe rendem troféus e placas comemorativas espalhadas pela sala de paredes rosas e teto e cortinas verdes da casa, se sucedem.

Há quatro domingos, com a irmã, Suluca, de 83 anos, presidente de honra da Ala das Baianas, foi estrela do Esquenta!, programa de Regina Casé. No Terreirão do Samba, levou o prêmio de melhor mestre-sala em 80 anos de desfiles. Há duas semanas, no dia marcado para a entrevista ao Estado, estava com pressa: tinha de sair para uma celebração em outra escola, a Estácio de Sá.

No sofá de casa, com o mesmo terno verde claro e blusa rosa usados na TV, a faixa atravessada no peito, Delegado não se alonga nas respostas. Para as fotos, abre o sorriso esperado. Gosta de lembrar dos anos em que dividia as atenções com porta-bandeiras como Neide, Nininha e Mocinha, dos shows com Carlos Machado, das viagens de trabalho pela Itália, Alemanha e França, das incursões ao carnaval de São Paulo com Cartola, Nelson Cavaquinho e Clementina de Jesus, dos anos de muitos namoros e nenhum compromisso.

"Estou um pouco cansado de dar entrevista. A da Regina Casé eu gostei, porque o povo todo vê. É bom ver homenagem à minha pessoa. Mas em vez das placas, preferia dinheiro", ele conta, ao lado do filho, Ézio, cantor de pagode e taxista. É Ézio quem insiste para que Delegado pare de fumar, e quem compra suplemento vitamínico para fortalecer suas pernas.

Ex-ritmista e diretor de harmonia, mestre-sala oficial da Mangueira desde os 27 anos, fora da função também há 27 - o último desfile na função foi o de inauguração do sambódromo -, Delegado tem prazer de ensinar. Detesta ver mestre-sala pulando na avenida, rodando em volta da porta-bandeira - "quem roda é ela, tem de ter o charme, o namoro, o gesto!"

Orgulha-se quando se reconhece nos jovens. Na escola, nas ruas do morro, na quadra da Mangueira (que adora ver cheia de gringos), é reverenciado o tempo todo.

"Ele hoje é uma figura simbólica, e sua presença é sempre considerada importante. Mas ninguém veio antes dele, ninguém virá depois. É o Pelé dos mestres-salas. Inventou os passos nas situações mais adversas", explica o escritor Sérgio Gramático Junior, autor da biografia conjunta Dionísio e Delegado: Vidas em passos de arte.

Parafuso da morte. Uma situação das mais difíceis lhe fez criar, de pronto, o "parafuso da morte". Foi nos anos 1950, na Avenida Presidente Vargas. O chapéu da porta-bandeira caiu no chão e Delegado, rapidamente, vergou o tronco para trás, pegou o adereço com a boca, o jogou para cima, reergueu-se e o devolveu à parceira. Tudo sem deixar os próprios adereços tocarem o chão. Na época, não se perdia ponto pela queda. Hoje, seria erro fatal.

Delegado, que já foi apontador do jogo do bicho e fiscal de feira livre, nunca faltou em um carnaval. Não vê muita graça em desfilar suspenso. "Quando entro, fico lembrando do passado. E me dá aquela vontade de sair do carro e pegar a porta-bandeira para sair dançando. Levei só 10, 10, 10, não é brincadeira, não vão mais repetir", profetiza. Os olhos mudam ao falar dos carnavais pré-regras. "Era mais devagar. O pai, a mãe, a irmã podiam assistir, levar uma água para você, porque era de graça."

Namoradas. Fisicamente, os 90 anos mais parecem 70. Quando insistem, até samba um pouquinho. Beber, quase não bebe. Dorme de madrugada, acorda meio-dia. "Até uns três anos atrás", diz a vizinha, tinha namoradas.

"Ele só pega menininha de 30 anos", brinca o amigo Manoel dos Anjos Dionísio, coordenador da Escola de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, que tem nos meneios, mesuras, giros, meias-voltas e torneados de Delegado a referência. "Meu irmão sempre foi levado, nunca quis se amarrar a ninguém", Suluca atesta. "Tem muita criatura que já sofreu por ele." / ROBERTA PENNAFORT

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