Pela 1ª vez, SP 'exporta' rainha de bateria para o Rio

Paulistana da Vila Formosa desfilará pela Mocidade Independente de Padre Miguel; intercâmbio entre carnavais cresce ano a ano

VALÉRIA FRANÇA, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2013 | 02h01

Quem assiste ao carnaval não imagina que muitos dos profissionais que constroem a festa no Rio e em São Paulo se dividem entre as duas cidade nesta época do ano. Mestres de bateria, passistas e carnavalescos ficam na ponte aérea. São Paulo sempre recebeu mais do que o Rio, principalmente quando se trata de rainha de bateria. Neste ano, pela primeira vez, uma paulistana negra, de uma comunidade de Vila Formosa, desfilará na Marquês de Sapucaí pela Mocidade Independente de Padre Miguel.

Modelo de eventos, Camila Alves, de 26 anos, começou no samba aos 7, em uma escola pequena do Grupo de Acesso, a Combinados de Sapopemba. E nunca mais deixou as quadras paulistanas. Foi rainha da Nenê de Vila Matilde, destaque da Camisa Verde e Branco e passista de ouro da Leandro de Itaquera. Há cinco anos, desfila como rainha de bateria da Vai-Vai.

Quando seu nome apareceu como candidata ao posto de rainha da Mocidade Independente de Padre Miguel, ela nem acreditou. "Para mim, isso era algo inatingível", diz Camila. Achou ainda mais difícil porque sua concorrente era a apresentadora paulistana Adriane Galisteu. "Eles disseram que precisavam de uma negra que soubesse sambar de verdade. E eu ganhei", diz Camila, muito orgulhosa. Adriane neste ano ficou fora da folia carioca.

Oportunidade. O caminho para a rainha da Vai-Vai chegar à Sapucaí começou a ser construído em 2011, quando a escola recebeu o carnavalesco carioca Alexandre Louzada, da Mocidade. Depois de trabalhar com Camila no galpão da escola, ele resolveu indicá-la no Rio.

Louzada gostou do samba e do comprometimento da paulistana com a escola. "Se não fosse o intercâmbio entre as escolas do Rio e de São Paulo, eu não teria chagado até aqui", diz Camila. Mãe de Kathlyn, de 8 anos, a rainha leva uma vida pacata.

A Vai-Vai exporta sua rainha, mas importa o carioca Jarbas Homem de Mello, ator do musical Cabaret, que vai coreografar a comissão de frente da escola. O coreógrafo vai se apresentar no sambódromo de São Paulo com um grupo de dançarinos. O tema da escola será o vinho. "Essa troca de experiências é muito rica. O carnaval de São Paulo traz uma excelente exposição para qualquer profissional", diz o carnavalesco Cahê Rodrigues, que também estará na Vai-Vai.

Já a Águia de Ouro vai trazer a carioca Milene Nogueira. Mulher do cantor Diogo Nogueira, ela estreia no carnaval de São Paulo. A escola vai fazer um tributo ao sambista João Nogueira, pai de Diogo, e mostrar a boemia carioca no sambódromo do Anhembi.

"Mas, quando acabar o carnaval de São Paulo, vou para Rio", diz o mestre de bateria Juca, de 46 anos, da Águia de Ouro. Ele vai desfilar no Salgueiro. "Não sou o único. Muitos ritmistas também vão sair na Sapucaí." Grande Rio e Acadêmicos da Rocinha são outras escolas que receberão profissionais do samba paulistano neste ano.

Diferenças. "Os carnavais paulistano e carioca não são mais tão diferentes", diz mestre Juca. "Antes, a cadência da bateria de São Paulo era mais lenta. Hoje não é. O que muda é a estrutura. O Rio tem mais subsídio."

A festa carioca é maior. "Para atravessar a Sapucaí, levo 20 minutos mais do que para cruzar o sambódromo de São Paulo", conta Camila, que só agora começou a fazer amigos na Mocidade. "No começo, quando desembarquei no Rio, os integrantes não falavam muito comigo. Senti um pouco de rivalidade no ar. Agora eles perceberam que o samba de São Paulo também é bom."

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