Peixes terão piracema 'seca' nos rios paulistas

Baixa vazão ameaça subida das correntezas e reprodução de espécies como piavas, lambaris e dourados; estiagem afeta turismo

José Maria Tomazela, Enviado especial, O Estado de S. Paulo

02 de novembro de 2014 | 03h00

PIRASSUNUNGA - A pior seca da história do Estado ameaça severamente a vida nos rios paulistas. O período da piracema, quando os peixes migram em direção à nascente para se reproduzir, começou ontem com os principais rios quase secos. “Será um desastre para a fauna aquática que só muita chuva poderia evitar”, alerta Antonio Fernando Bruni Lucas, coordenador substituto do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Peixes Continentais (Cepta), do Ministério do Meio Ambiente.


De acordo com o órgão, se a estiagem persistir, piavas, lambaris, dourados e curimbatás não encontrarão água que os leve a nadar contra a correnteza para a desova. O drama se repete: já no ano passado, em rios como o Piracicaba, o Pardo e o Mogi-Guaçu, os peixes não conseguiram se reproduzir como deveriam. 

Neste ano, segundo Lucas, a situação está ainda pior. “Em época de chuva, a vazão do Mogi-Guaçu é de 200 metros cúbicos por segundo. Hoje estamos com menos de 10 metros.” Sem água, os peixes ficam parados em poções à espera de que o nível aumente. Se isso não acontece, as fêmeas reabsorvem as ovas e não há reprodução.


A piracema ocorre em todos os rios, mas, de acordo com Lucas, os peixes parecem preferir aqueles em que há mais corredeiras, que melhoram o nível de oxigênio na água. 


O Rio Mogi-Guaçu, por exemplo, é tido como um dos mais piscosos do Estado e, por isso, a piracema na Cachoeira das Emas, em Pirassununga, entrou no calendário turístico. O dia 8 de dezembro, quando ocorre o pico da subida, virou feriado municipal. A festa não terá protagonista - o peixe. “Faremos a festa para manter a tradição, mas, se não chover muito, vai ser com o rio seco”, diz Fábio Roberto Ferrari, do setor de Comunicação da prefeitura. 


Os turistas que procuravam a cidade para admirar a cachoeira agora estão indo para ver o desastre ambiental. O aposentado Ramiro da Silva, de 59 anos, viajou do sul de Minas para filmar o leito seco. Caminhando pelas pedras, ele quase atravessou o rio sem molhar os pés. “Nunca vi isso antes, vou mostrar para os amigos.”


O peixe continua no cardápio dos restaurantes à beira-rio, mas agora vem de muito longe. “Nossa dourada é muito boa, mas vem do norte do Pará”, conta Edson Lemos, garçom do restaurante Dourado - o nome homenageia um peixe tradicional do Mogi-Guaçu. A comerciante Caroline Silvestrini conta que o preço dos peixes mais comuns, como o lambari e o curimbatá, mais do que dobrou. “Recebia curimbatá a R$ 6 o quilo. Agora, entregam a R$ 15.” A culpa é da seca, segundo ela. 


Desolação. Em Piracicaba, pescadores olham desolados para o rio que dá nome à cidade e preveem que a piracema não vai acontecer. A cachoeira, principal atração turística, está seca. “O rio precisaria subir pelo menos dois metros, o que é quase impossível”, diz o pescador Eurides Fernão, de 62 anos. Ele conta que a última piracema “boa” foi em 2008. 


No Rio Sorocaba, a subida dos peixes é uma atração na escada da Represa San Juan, em Cerquilho, mas o nível está tão baixo que dificilmente haverá piracema. Moradores das margens do Rio Grande, em Colômbia, na divisa com Minas, presenciam anualmente a migração. Há duas semanas, houve uma operação de salvamento de centenas de peixes. 


Durante a piracema, há restrição na pesca em todo o Estado para garantir a reprodução dos peixes e a renovação dos estoques pesqueiros.

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