Peça arqueológica mais valiosa de SP é achada no Itaim

Anel de ouro e rubi foi um dos 1.392 fragmentos encontrados por arqueólogos nas escavações de obras da Avenida Faria Lima

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2012 | 03h05

Não se sabe se foi relíquia de família, extravagância de algum apaixonado ou apenas mais uma joia de mulher rica da época. Fato é que o anel de ouro que aparece nesta página, com uma bela pedra de rubi nele incrustada, é o tesouro arqueológico mais valioso já encontrado em solo paulistano.

(Estamos falando em valor de mercado, é claro. Afinal, quando se trata de importância histórica, não é tão simples medir se um caco de porcelana é mais importante que um frasco vazio de remédio do século retrasado.)

O anel foi encontrado em plena Avenida Brigadeiro Faria Lima, 3.500, no coração do Itaim-Bibi, onde, por mais improvável que possa parecer, arqueólogos esquadrinharam o chão ao longo de todo o ano de 2011, em busca de vestígios do que foi a São Paulo de antigamente. Era a fase preliminar do empreendimento imobiliário que agora começa a ser erguido no endereço.

"A maior parte do material encontrado estava associada à lixeira de uma casa simples, cujas fundações também foram localizadas no terreno", explica a arqueóloga Lúcia Juliani, diretora da empresa contratada para fazer o serviço. "Os elementos mostram o cotidiano da vida de um grupo que, na virada do século 19 para o século 20, já tinha acesso ao mercado urbano daquele tempo. Uma família simples, mas com relativo poder aquisitivo." Era o começo da urbanização do Itaim.

Material. No sítio arqueológico, pesquisadores coletaram 1.302 fragmentos. Na maioria pedaços de louça (604 itens) e vidro (405), mas também foram reunidos itens de cerâmica (105 fragmentos), ossos e outros resquícios de animais, resíduos de materiais construtivos (partes de tijolos, telhas e pisos) e outros materiais, como plásticos, madeiras, moedas e conchas.

Mas a estrela da coleção é o anel de ouro com pedra de rubi. "Encaminhamos para análise e só a pedra foi avaliada em US$ 10 mil", afirma a diretora de desenvolvimento da construtora, Deise Poli. "É raro encontrar algo de valor mercadológico em São Paulo", comenta a arqueóloga Lúcia.

Trata-se de uma joia com 10,2 gramas de ouro amarelo 18 quilates, adornada por uma pedra de rubi lapidado. O rubi é do tipo "sangue de pombo", de cor vermelha intensa e rara. É oriundo da antiga Birmânia - hoje Mianmar -, cujas minas de exploração estão desativadas há pelo menos meio século. De acordo com o relatório elaborado pelos arqueólogos, o anel foi muito pouco usado, "visto que a lapidação da pedra encontrava-se praticamente intocada". Pesquisadores acreditam que a peça seja dos anos 1920.

"Ao lado de cinco moedas e dois selos imperiais encontrados nas escavações do Solar da Marquesa (realizadas entre 2008 e 2010), trata-se da descoberta arqueológica mais cara, do ponto de vista econômico, de São Paulo", comenta a arqueóloga Paula Nishida, coordenadora do Centro de Arqueologia do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) do Município. Como é praxe nesse tipo de escavação, todo o material coletado foi encaminhado ao órgão municipal - com exceção do anel, que está em cofre situado em outro endereço (não revelado por razões de segurança), tudo fica abrigado no Sítio Morrinhos, que funciona como um museu arqueológico na zona norte.

A análise do material coletado permite traçar um perfil de consumo e comportamento das famílias que habitavam aquela região cem anos atrás. A sociedade paulistana vivia uma fase de transição. "A louça de barro, muito presente até o século 19, praticamente desaparece do registro arqueológico das unidades domésticas e é substituída pela louça branca, impermeabilizada pelos esmaltes", diz o relatório.

Nos frascos e embalagens, há marcas e produtos famosos da primeira metade do século 20, como Santa Marina, Cisper, Coty, Leite de Magnésia Philips e Guaraná Antarctica. "Quanto aos padrões de consumo, predominam garrafas de bebidas alcoólicas, principalmente cerveja e vinho", aponta o estudo. A dieta desses habitantes é caracterizada também por indícios como ossos de boi.

Potencial. Para a história de São Paulo, tudo isso é de enorme riqueza. "A região do Itaim, como já pudemos ver em outros sítios, é de um potencial arqueológico incrível", conclui Paula.

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