PCC inspirou facção que leva terror ao Estado

Primeiro Grupo surgiu há 10 anos, em prisão da Grande Florianópolis, sob impacto da rebelião de presos em SP

O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2013 | 02h01

A inspiração veio de São Paulo, ainda sob o impacto da megarrebelião de presos feita dois anos antes pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). No dia 3 de março de 2003 (03/03/03), no pavilhão 4 da Penitenciária de São Pedro de Alcântara, em São José, na Grande Florianópolis, o traficante Nelson de Lima, vulgo 70, criou o Primeiro Grupo Catarinense (PGC).

Assim como ocorreu em São Paulo, o governo de Santa Catarina demorou para admitir que uma facção se estruturava nos presídios para organizar os presos. Somente em 2010, o então secretário da Segurança, André Luis Mendes, admitiu, pela primeira vez, que havia um grupo organizado de criminosos mandando das penitenciárias. Mas já era tarde. O PGC tinha se fortalecido e conquistado adeptos.

Atualmente, segundo fontes da inteligência ouvidas pelo Estado, o PGC conta com 1.200 integrantes dentro das penitenciárias. Seu quartel-general ainda é a Penitenciária de São Pedro de Alcântara. As mesmas fontes calculam que o PCC tenha 80 batizados nos presídios em Santa Catarina e afirma que as duas facções disputam poder. O PCC é uma força em crescimento principalmente do lado de fora das prisões, onde o PGC é frágil.

Apesar da rivalidade entre as facções, a estrutura do comando catarinense segue à risca os moldes da organização paulista. Há estatuto pregando paz, justiça e liberdade, a pacificação entre os criminosos, e proibindo a filiação de talaricos (aqueles que cortejam a mulher de outros presos), Duque 13 (estupradores) e X-9 (informantes da polícia).

A estrutura do PGC tem duas camadas de comando. No "primeiro ministério", formado pelos fundadores, estão os 10 mandachuvas. Nelson de Lima, hoje em um presídio federal de Mato Grosso, foi jurado pela cúpula atual do PGC por discordar de algumas decisões dos criminosos, processo de racha semelhante ao ocorrido em São Paulo. Abaixo está o "2º ministério", com outras 10 lideranças intermediárias. Assim como no PCC, há disciplinas, irmãos que coordenam o cumprimento do proceder entre os presos, e os sintonias, responsáveis por repassar informações e salves.

Tortura. Uma das hipóteses principais para o começo das rebeliões no Estado é um acontecimento de outubro do ano passado. Um agente prisional foi pego tentando entrar no Presídio de São Pedro de Alcântara com 1,5 kg de maconha, Viagra, fumo de corda e cocaína. A encomenda seria para Rodrigo da Pedra, uma das lideranças do PGC.

Em retaliação, da prisão veio a ordem para matar Deise Alves, de 30 anos, agente penitenciária e mulher do diretor do presídio, Carlos Alves, de 36. Com o assassinato, Carlos ficou abalado emocionalmente, jurou vingança no enterro, segundo testemunhas, mas mesmo assim voltou a trabalhar no mesmo presídio 10 dias depois. Foi quando começou a primeira onda de ataques, em novembro, depois de uma série de denúncias de torturas.

Para acalmar os presos e parentes, que denunciavam maus-tratos, a Polícia Civil abriu inquérito e fez exames de corpo de delito em 70 presos. Em 60% dos casos, o resultado foi positivo para tiros de borracha. Todos acusavam o diretor, que admitiu os disparos, alegando que eram tecnicamente necessários. "Ainda não concluí o inquérito. É uma situação delicada, que exige cuidado, porque Alves sempre foi um diretor muito competente", afirma Rodolfo Serafim, delegado do 1.° Distrito de São José, responsável pelo inquérito.

A segunda onda recomeçou quando Rodrigo da Pedra foi transferido para Criciúma. No presídio de Joinville, novo vídeo mostrava presos sendo atacados por disparos de borracha. Os ataques do PGC voltaram com toda força no dia 30 de janeiro.

Em 2009 e 2010, 40 lideranças do PGC já haviam sido espalhadas por presídios federais. Voltaram mais articuladas e com novos contatos. O receio é que outra transferência em massa possa ampliar a rede do tráfico catarinense, que segundo a inteligência tem contato até com o grupo mexicano Los Zetas.

Tráfico. Com sua capital mantendo ao longo de anos taxas de homicídio abaixo dos 10 casos por 100 mil habitantes, Santa Catarina sempre teve graves problemas com tráfico. "Em 1996, quando fui candidato a vereador, já tinha de pedir autorização de traficantes para entrar nos morros. O governo sempre fingiu que o problema não existia", diz Ricardo Freitas, do Sindicato dos Trabalhadores de Transportes.

Nos últimos anos, o Estado testemunhou um crescimento extraordinário dos presos. São 17 mil detidos, para 10 mil vagas. Muita gente perigosa foi punida e colocada atrás das grades. Só que, assim como em São Paulo, o consumo de drogas continuou alto e surgiu um novo problema: as facções, cujo enfrentamento é um dos principais desafios da segurança pública./BRUNO PAES MANSO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.