Felipe Rau/Estadão
Experiência. Gustavo Araújo abre as portas da sua casa há sete anos para os convidados. ‘São pessoas românticas’, diz Felipe Rau/Estadão

Paulistanos transformam casa em restaurante e servem jantar a desconhecidos

Experiência pode servir de treino para abrir um estabelecimento; quem vai procura ambientes mais intimistas

Júlia Marques, O Estado de S. Paulo

30 de dezembro de 2018 | 03h00

O cardápio escrito à mão, no capricho, circula pelas redes sociais. Desde 2017 que Dede Sendyk, de 51 anos, deixou a vista enevoada de um escritório na Avenida Luís Carlos Berrini, na zona sul paulistana, para se dedicar só à fumaça das alcachofras. Toda semana, ela transforma a sala de seu apartamento em um restaurante. E recebe conhecidos e desconhecidos para almoços e jantares pagos.

A experiência vem na esteira de outros serviços no mesmo modelo, como os de hospedagem em casa. Em comum, quem cozinha “para dentro” tem amor pelo fogão, gosta de receber convidados e quer garantir renda com o que faz de melhor. Quem vai procura ambientes mais intimistas e novas vivências gastronômicas. 

No caso de Dede, a clientela é formada, na maioria, por amantes da alcachofra, especialidade do apartamento. “Mas também vem muito casal. Tem pessoas que não gostam da impessoalidade do restaurante.” A reserva no Dadedé deve ser feita um dia antes. O apê em Santa Cecília, região central, comporta até seis pessoas - o que cabe na mesa de jantar. A refeição, por pessoa, custa R$ 130, com bebidas à parte. 

O grupo escolhe entre algumas opções do menu - a chef sugere o vinho e tem até sobremesa. O pagamento é feito ali mesmo, em dinheiro ou cartão. Para Dede, que não descarta ter um restaurante no futuro, esse é um bom treino. “A maneira como trato os alimentos e sirvo porções melhora a cada jantar. Isso me estimula a continuar.”

Amiga de amigos da chef, a museóloga Eugênia Esmeraldo, de 71 anos, foi uma vez, voltou e quer ir de novo. Atraída pela comida, gostou também da experiência. “Estou aberta a tudo o que é novidade e acho legal dividir o espaço.” Levou dois casais que nem se conheciam e, no fim, viraram amigos. 

O formato costuma agradar, mas os “chefs de casa” reconhecem não ser unanimidade. “Tem pessoas que não estão a fim de vir para minha casa. Tenho certeza de que tenho amigos que só estão esperando eu abrir um restaurante para comer minha comida”, diz Dede. 

Ao gosto do freguês

Abrir um restaurante não está nos planos de Flávia Pinto, de 42 anos. Isso porque atender a clientela em casa foi o jeito que achou de conciliar cuidados com o filho e o amor pela culinária baiana. Não à toa seu restaurante em casa se chama Quitutes de Mainha, alcunha que ela pronuncia com gosto e o saboroso sotaque. 

Em sua casa no Cambuci, região central, moquecas e acarajés enchem a mesa de cores. “A casa vira de pernas para o ar para receber.” Baiana acostumada com casa cheia, barulho e fartura, não foi difícil para ela abrir as portas. O desafio ficou para o marido. Paulistano discreto, teve de “abaianar” para dar conta da mudança. Hoje, faz sala para convidados enquanto Flávia finaliza pratos. A dose da pimenta varia de acordo com o grupo. 

O cuidado com o tempero é ainda maior quando a visita vem de longe. Turistas dos Estados Unidos, Canadá e até Líbano já foram conhecer a comida de mainha. “Trouxe o mundo para minha casa”, diz. Quando o idioma dificulta - ela não fala inglês -, o sabor dá uma mão. "A comida tem sua própria linguagem."

Interessados não só em comer, mas em conhecer o processo até a mesa posta, clientes dos restaurantes em casa elogiam a chance de bisbilhotar a cozinha, algo raro em espaços convencionais. “Você pode levantar e falar com ele na cozinha. Permite interagir mais com o chef”, diz o bancário Affonso Taciro, de 47 anos, sobre a casa de Gustavo Araújo, de 36, na Vila Mariana, zona sul. 

A Casa do Araújo abre toda sexta e sábado à noite. Convidados fazem reserva e se espalham por sala, edícula e quintal - o mesmo que, em dias normais, é usado para estender a roupa da família. 

Publicitário e músico, ele serve porções para compartilhar - de R$ 25 a R$ 65 - e há até 25 lugares. Começou antes de virar moda, há sete anos, com amigos e parentes. “A maior preocupação era se iam gostar da comida.” Quem vai hoje foge de filas e da ‘frieza” de restaurantes. “São pessoas românticas, no sentido mais amplo.”

Plataforma facilita contato entre profissional e cliente

Para conectar quem cozinha em casa e comensais, Flávio Estevam criou há 3 anos, uma espécie de “Airbnb dos restaurantes em casa”. O Dinneer, como é chamada a plataforma, ajudou a concretizar cerca de 20 mil jantares desde então. “80% dos anfitriões não trabalham com gastronomia, mas a maioria tem vontade de montar um restaurante”, explica Estevam.

Na plataforma, é possível escolher uma experiência gastronômica, indicar o número de pessoas que vão participar e, então, é feito o pagamento. Um quinto do valor vai para a plataforma e o restante fica com o anfitrião. Quando ocorre o “match” entre o cliente e o cozinheiro, o Dinneer cria um grupo de WhatsApp com todos eles e ajuda a resolver impasses como atrasos. 

Hoje, estão conectados à plataforma brasileiros de todos os Estados e estrangeiros de mais de 40 nacionalidades, diz Estevam. Opções regionais fazem sucesso, mas, segundo o empresário, as experiências não se restringem ao menu. “Sempre tem algo a mais. Tem um casal de anfitriões em que um toca piano enquanto o cozinheiro serve.” 

Para Letícia Menegon, coordenadora do Centro de Empreendedorismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), movimentos como os restaurantes em casa se inserem no contexto de crescimento da economia compartilhada no Brasil e no mundo. “As pessoas estão baseando seu comportamento no compartilhamento de recursos que podem ser os mais variados.”

Segundo Letícia, o movimento não é exclusivo dos jovens “Ganhou força muito mais pela capacidade de as pessoas se unirem nas redes sociais.” As grandes capitais, diz ela, são terreno fértil para o surgimento. “Elas são mais abertas à diversidade. É um caldeirão efervescente.” Mas, antes de empreender dentro de casa, a recomendação é para que se faça um avaliação cuidadosa.

“É preciso observar se você tem uma infraestrutura mínima para receber, uma cozinha com higiene adequada, mobiliário mínimo para que as pessoas consigam usufruir do espaço e que consigam fazer isso em grupo, não individualmente”, diz Letícia. Os convidados, por sua vez, devem se esforçar para que a experiência seja agradável para todos. Evitar atrasos e respeitar os horários estipulados pelo dono da casa para o fim da reunião, por exemplo, são algumas dicas. 

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Jantar fechado? Antes de reservar, faça um teste

O programa pode não ser para você, mas o fato é que tem muita gente boa servindo em casa

Patrícia Ferraz, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2018 | 03h00

Um jantar fechado é uma experiência única. Mas não é para qualquer um. Se você não for a pessoa mais extrovertida do mundo, antes de fazer sua reserva recomendo um teste. Imagine a seguinte cena: você toca a campainha e é recebido por um casal sorridente que nunca viu na vida. Superada a porta de entrada, é hora de se juntar aos outros convidados, igualmente desconhecidos. Não vale ficar quieto, afinal, você e o resto do grupo estão ali para se divertir. Chegam aperitivos, drinques, a conversa segue solta. Passou a primeira fase do teste? Está na hora de ir para a mesa. As expectativas são grandes, afinal, quem se atreve a chamar estranhos para jantar na sua casa (e cobra por isso) deve cozinhar bem.

A comilança começa com caramujos do mar, um dos ingredientes em alta na gastronomia - os anfitriões são antenados. Jaca também está em todas e chega acompanhando a prejereba. A especialidade do dono da casa é o foie gras e ele prepara o fígado gordo de ganso à perfeição, quase cru, apenas levemente passado na chapa para servir com compota de caju. Na sobremesa, sorvete de baunilha do cerrado com pólen de abelha nativa. Deu água na boca? Faça logo a reserva.

O programa pode não ser para você, mas o fato é que tem muita gente boa recebendo para jantar em casa. E vários donos de restaurante começaram assim. Antes de abrir o Bia Hoi e o Cochichine a jornalista Dani Borges fazia jantares fechados em casa. Izadora Ribeiro, do Isla Café, recebia no Apartamento 8. A Mermeleia, marca de geleias artesanais nasceu de jantares fechados na casa de Mauro Concha e Thiago Henrique - a primeira geleia foi servida com queijos, no fim do jantar, logo começaram as encomendas e o casal fechou a casa e abriu uma lojinha simpática em Perdizes. O chef Raphael Despirite, do Marcel, fez o caminho contrário: inventou o Fechado para Jantar, para fugir do cardápio fixo de seu restaurante. Começou cozinhando para grupos pequenos, hoje já são mais de 100 reservas a cada evento. Cozinheiros que estão fora do mercado também andam fazendo almoços e jantares entre quintais, lojas e galerias.

Não sou frequentadora destes jantares, acabo preferindo visitar restaurantes recém-inaugurados, até por razões profissionais. Mas guardo na memória os jantares servidos na casa dos mexicanos Lourdes Hernandez e Felipe Ehrenberg, hoje falecido, um artista plástico que veio ao Brasil como adido cultural do México. Era um grande programa, entre as estórias divertidas do irreverente Felipe e a comida maravilhosa da Lourdes, a cocinera atrevida, que ia tirando tortillas artesanais quentinhas de guardanapos de pano, trazendo à mesa moles, carnitas, Chiles... certamente as melhores refeições mexicanas que já provei. Eles voltaram para o México depois de treze anos no País e deixaram por aqui As Lourdetes, seguidoras da Lourdes. Mas ainda não fui lá provar.

 

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