Paulistanos já disputam apartamento de zelador

Prédios terceirizam serviços e põem imóvel para locação. Aluguel baixo é diferencial

ARTHUR GUIMARÃES, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2012 | 03h01

O elevador social não chega até a cobertura do fotógrafo Diego Lajst, de 29 anos, nem à cabine de serviço. Ao chegar em casa, no topo de um edifício na Rua Padre João Manuel, nos Jardins, zona sul de São Paulo, ele precisa subir um lance de escada. Lá dentro, igualmente, nem tudo são flores - apesar dos manacás e das quaresmeiras. O imóvel fica bem embaixo da casa de máquinas. Lajst hoje mora na antiga residência do zelador, uma tendência crescente no mercado imobiliário paulistano.

O fotógrafo vive em um apertado cômodo de 30 metros quadrados de área útil - fora a varanda. E há bons motivos para o "sofrimento". "Pago pouco, tenho um terraço com plantas e uma ótima localização: estou a poucas quadras de cinemas, teatros, livrarias e meios de transporte público", diz ele. "Se eu visse uma placa para locação aqui, nem perguntaria os detalhes", continua, ciente das inflacionadas cifras do mercado da região.

O fenômeno surgiu após a profissionalização dos serviços antes executados pelos zeladores - a terceirização os tem substituído na portaria e na manutenção, por exemplo. Imóveis ficam vazios e se abre caminho para um novo nicho de mercado e renda para o condomínio. As vantagens são evidentes, tanto para o prédio quanto para o locatário.

Hoje, pelo espaço, Lajst não paga mais do que R$ 1 mil, o que inclui um condomínio proporcional. No restante do prédio de 12 pavimentos, nos imóveis de cerca de 150 m², o valor chega a quase R$ 5 mil.

Nas corretoras de imóveis, essas ofertas dificilmente aparecem na carteira de opções para novos inquilinos. A divulgação é mais no boca a boca, como no caso do fotógrafo. Mas isso não quer dizer que as chances são poucas. "De olho nos custos, os condomínios estão cada vez mais terceirizando o serviço de zeladoria", diz Márcia Romão, gerente de relacionamento com clientes da Lello Condomínios. "Há um crescimento na busca por esses apartamentos menores e bem localizados, especialmente entre solteiros e o público jovem."

Em expansão. Segundo dados da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp), 22,5 mil dos 25 mil prédios residenciais paulistanos têm cômodos para zelador. Como aponta pesquisa da Lello, 20% já não têm mais trabalhadores instalados permanentemente. As oportunidades se concentram em Cerqueira César, Paraíso, Vila Mariana, Perdizes e Pompeia.

Legalmente, não há nenhum impedimento para essa operação. A própria Prefeitura afirma que a ação não depende de aprovação oficial. A decisão deve apenas ser tomada pelos próprios moradores do edifício, em conjunto. No entanto, alguns detalhes precisam de aprovação em assembleia, conforme determinar a convenção do prédio.

Na Rua Herculano, no Sumaré, zona oeste, a estratégia deu certo no condomínio da síndica Nayara da Costa, de 47 anos. Servindo apenas como depósito de materiais, o imóvel desenhado para abrigar zeladores estava ocioso havia anos. "É um espaço gostoso, que hoje nos rende R$ 1.200 por mês para arcar com despesas de manutenção", diz. "Vamos pintar todo o edifício e esse dinheiro veio em boa hora."

No espaço, vive hoje a produtora Claudia Daibert, de 27 anos, e seu filho, de 8. Todos têm direito a usar a piscina ou passear pela área de lazer do imóvel. "Dividia um apartamento nessa mesma região. Quando resolvi que queria mais privacidade para o meu filho, vi que dificilmente encontraria uma opção em conta no bairro. Esse foi meu achado."

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