Paulistanos eram obrigados a tapar buracos nas ruas

Quando a vila de São Paulo mudou de condição, o próprio paulistano era o responsável por grande parte das melhorias públicas a serem realizadas na recém-criada cidade. Até por tapar buracos na rua. Caso não atendessem às ordens de uma Câmara que também funcionava como órgão judiciário, a pena era quase sempre uma multa de 6 mil réis e 30 dias de cadeia.

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2011 | 00h00

Em 1713, como consequência à elevação de vila a cidade, em apenas dois meses a Câmara discutiu três melhorias estruturais - média ótima para aqueles tempos. Em 19 de fevereiro, a Câmara exigiu que os moradores "cuidassem do asseio das ruas e arredores das casas". Além de "limpar a testada (de ruas e becos) e limpar arvoredos ao redor", os paulistanos proprietários de terras na cidade tinham também de "consertar as covas (buracos) que houverem (sic) nas ruas". Também deveriam colocar "luminárias" nos sobrados que começavam a aparecer - uma iniciativa inédita na cidade. Os vereadores decidiram ainda que os comerciantes teriam de manter abertas as "vendas" por jornada recorde: das 6h às 21h, sob pena de multa.

Outra discussão presente logo que a vila virou cidade foi a crise do sal, bem que simplesmente não chegava à cidade. E o que conseguia chegar às vendas custava 12 mil réis a arroba, quando "no Rio custa de 2 mil a 4 mil réis". Era situação "vexatória", à qual o paulistano teria de conviver por gerações: a penúria só foi solucionada na segunda metade do século 19.

Um inédito serviço de correio foi proposto pela Coroa, para melhorar a comunicação com a cidade. Em 30 de dezembro de 1713, o assunto foi levado à Câmara. Os primeiros carteiros da cidade seriam Sebastião Alves da Costa e seu irmão, José Alves da Costa. A cidade toda foi chamada para discutir. No fim, os vereadores definiram que o serviço não era necessário e recusaram a oferta de Portugal. Não queriam pagar mais um imposto.

"A elevação da vila a cidade foi parte do plano da Coroa de se aproximar das minas de ouro. Mas uma honraria dessas também causa melhorias urbanas, ainda que bastante modestas", diz o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Nestor Goulart Reis, autor do livro São Paulo - Vila - Cidade - Metrópole.

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