Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Paulistano passa 10 minutos a menos no trânsito, mas ainda gasta 2h43

Pesquisa da Rede Nossa São Paulo aponta ainda elevação na insatisfação dos usuários do ônibus na capital paulista

Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2018 | 10h05
Atualizado 18 Setembro 2018 | 23h46

SÃO PAULO - O tempo médio de deslocamento diário dos moradores de São Paulo, incluindo todas as atividades diárias, caiu 10 minutos neste ano na comparação com 2017. Os trajetos, no entanto, ainda consomem em média 2h43 dos moradores da cidade de São Paulo, representando pouco mais de 11% do dia. Crise econômica - principalmente o desemprego -, além da migração de motoristas e usuários de transporte público para aplicativos estariam entre os responsáveis pela redução no tempo de deslocamentos.

O ônibus continua sendo o meio de transporte mais utilizado, mas o uso caiu do ano passado para 2018 e cresceu o nível de insatisfação dos usuários. Por outro lado, mais que dobrou o porcentual do uso de aplicativos de transporte na cidade. Os dados são da Pesquisa Mobilidade Urbana na Cidade, da Rede Nossa São Paulo, divulgada nesta terça-feira, 18. 

Após crescimento de 15 minutos registrado em 2016, o tempo médio gasto em todos os deslocamentos caiu cinco minutos no ano passado, atingindo 2h53. Entre 2017 e este ano, caiu o dobro (10 minutos), alcançando 2h43. Já o tempo médio diário de deslocamento para realizar a atividade principal diminuiu 3 minutos e chegou a 1h57 em 2018. No ano passado, o descolamento diário médio era de 2 horas.   

Entre as razões para a redução no tempo dos deslocamentos, Américo Sampaio, gestor de projetos da Rede Nossa São Paulo, destaca a alta taxa de desemprego, a ampliação das estações de metrô (o que retira usuários da malha viária), alteração em pacotes de benefícios para passageiros de ônibus, o preço da tarifa e o aumento no uso de carros particulares por aplicativo.

"A principal hipótese para ter reduzido em 10 minutos o tempo médio é um conjunto de fatores. Talvez o principal elemento seja o desemprego. Tem menos gente precisando ir ao centro em horário de pico. Mesmo tendo redução de 10 minutos, o patamar ainda é bastante elevado do tempo do trânsito. Reduzimos 10 minutos, mas ainda ficamos 2h43 em média no trânsito. É muito tempo", diz Sampaio. 

Para o gestor de projetos, os números indicam que há hoje maior conexão entre diferentes modais nos deslocamentos do paulistano, especialmente com a consolidação dos transportes particulares por aplicativo na cidade. Entre 2017 e este ano, caiu de 47% para 43% a parcela da população que utiliza ônibus no deslocamento diário. Por outro lado, subiu de 22% para 24% o número de usuários de carro particular e ainda de 2% para 5% aqueles que recorrem ao serviço de transporte por aplicativo.

"A hipótese é que a qualidade do ônibus piorou e isso faz com que menos pessoas utilizem o transporte público. Ou seja, cada um dá o seu jeito, seja ficar em casa no caso de uma pessoa desempregada, seja ir de Uber até o metrô. A pesquisa aponta uma perda de qualidade no sistema de transporte", diz Sampaio.

Como consequência, segundo o gestor de projetos da Rede Nossa São Paulo, parte da população que poderia usar o sistema de transporte público começa a optar por outros meios de transporte. "Essas pessoas pedem, por exemplo, um carro por aplicativo até a estação de Metrô. A aplicação desses serviços na cidade talvez esteja estimulando essa reação do público."

A pesquisa reforça uma tendência nacional. Segundo a pesquisa Mobilidade Urbana & Baixo Carbono, do Instituto Clima e Sociedade (ICS), realizada com 3 mil pessoas de todo o Brasil e divulgada em dezembro de 2017, as operadoras de ônibus estão entre as organizações mais mal avaliadas pela população. Para 57% dos brasileiros, a imagem do sistema é negativa e para 39%, positiva. O mesmo estudo apontou que oito em cada 10 brasileiros avaliam favoravelmente os aplicativos de transporte privado - a imagem é negativa para 11% dos brasileiros. 

Há 10 meses, após bater o carro, o bancário Felipe Scherb, de 25 anos, passou a se transportar de casa, na Vila Andrade, zona sul, para o trabalho na Vila Olímpia, também na zona sul, com uma empresa de transporte por aplicativo. 

Mesmo após receber o dinheiro do seguro do carro, Scherb preferiu continuar utilizando o transporte privado para ir trabalhar. Como de casa até o trabalho seria necessário pegar três ônibus, o bancário viu vantagem em manter o que era para ser passageiro. O tempo de casa até o trabalho é o mesmo, indo com o próprio carro ou chamando um veículo por aplicativo: cerca de 40 minutos. Mas a economia e a tranquilidade são apontadas como as principais razões para a adoção do novo hábito que terceiriza a direção para outro motorista. 

"Estava bom não pegar trânsito. É bom porque não me estresso. Nessa meia hora até o trabalho, posso mexer no celular, ver e-mails, ler e até dormir se estiver cansado. Dependendo do destino, vale a pena usar o aplicativo", explica.  Já para ir do trabalho à faculdade em Higienópolis, na região central, prefere ir de trem e metrô. "O caminho é tranquilo, e a economia compensa."

Mobilidade

André Ferreira, engenheiro mecânico e diretor-presidente do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), diz que a redução no tempo gasto no trânsito não significa melhora na mobilidade urbana da capital paulista. 

"Dez minutos a menos é uma redução de 5% no tempo de viagem. É pouco. Não estou dizendo que não é importante, mas não se pode iludir. Essa informação não pode ser utilizada para fazer sombra das outras informações, por exemplo: o tempo caiu, mas a percepção é de que o ônibus está demorando mais e o pedestre se sente inseguro de andar a pé", afirma. 

Segundo ele, a crise econômica afeta a redução no número de viagens, reduzindo o número de veículos no trânsito. "Talvez as pessoas estejam optando por outro modal. Não se pode dizer que o usuário deixou de usar ônibus para usar os aplicativos. O desemprego é grande, e não necessariamente porque se deslocou para outro modal."

Ferreira avalia ainda que é preocupante a perda de espaço do transporte público. Segundo o especialista, a redução de tempo no trânsito pode ser considerada positiva individualmente, mas "a soma de benefícios individuais, neste caso, não vai resultado em um benefício público conjunto". Ele defende que o poder público deve investir na ampliação de calçadas, ciclovias e corredores de ônibus, premissas, conforme Ferreira, básicas para a melhoria na mobilidade de uma cidade. 

"Se todo mundo começar a trocar transporte público por transporte por aplicativo, vai inviabilizar o sistema. Vai lotar a rua de automóveis. É bom, mas tem prazo de validade. Não vejo solução fora do transporte público", diz o diretor do Iema.   

Na opinião de Sergio Ejzenberg, engenheiro e mestre em Transportes pela Escola Politécnica da Uniersidade de São Paulo (Poli-USP), a pesquisa aponta para o início de uma crise no sistema do transporte público, o que segundo ele também estaria empurrando passageiros para as empresas de transporte por aplicativo. 

"Os dados indicam que houve aumento significativo de uso desses aplicativos e redução de mesmo tamanho no uso dos ônibus. Poderíamos dizer, sim, que está havendo uma migração. Você tem aplicativos com tarifas cada vez mais reduzidas e ônibus ficando cada vez mais demorados", diz. "É fundamental manter operando adequadamente o sistema de ônibus, principalmente investindo em corredores, para que seja atrativo, ofereçam velocidade e consigam manter a demanda."

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É fundamental manter operando adequadamente o sistema de ônibus, investindo em corredores, para que seja atrativo, ofereça velocidade e consiga manter a demanda.
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Sergio Ejzenberg, mestre em Transportes pela Escola Politécnica da USP

Para Ejzenberg, a crise econômica brasileira é outro motivo forte para a queda no tempo dos deslocamentos. "Isso gera uma diminuição do fluxo de veículos, aumento da velocidade e menor tempo de deslocamento", afirma. 

Usuários de ônibus estão insatisfeitos e pedestres se sentem inseguros, diz pesquisa

Houve uma elevação da insatisfação do usuário do ônibus na cidade de São Paulo. Segundo a pesquisa, 54% afirmam que a lotação aumentou em relação ao ano passado, 42% dizem que cresceu o tempo de espera no ônibus em relação ao ano passado e outros 40% declaram que aumentou o tempo de duração da viagem.

O estudo da Rede Nossa mostra que quatro em cada 10 paulistanos falam que não usam o ônibus porque é muito cheio. Em 2017, a lotação era apontada por 31% dos entrevistados com o principal  motivo para não utilizar o ônibus em São Paulo - neste ano, a percepção subiu para 37%. No ano passado, 24% dos entrevistados afirmaram que não utilizavam este meio de transporte porque o trajeto demorava demais. O índice subiu para 31% neste ano. 

A Secretaria Municipal de Transportes e Mobilidade informou, em nota, que tem como meta o "aumento do uso do ônibus pela população". Para isso, diz a pasta, foi elaborado um novo edital de licitação do sistema "que busca garantir mais conforto ao usuário, com coletivos mais novos, com ar-condicionado, Wi-Fi e maior oferta de lugares". 

"Além disso, o projeto estratégico de ampliação do sistema de ônibus contempla a entrega de corredores e de terminais urbanos, que vão conferir maior eficiência ao sistema e contribuir para a redução do tempo de viagem, assim como a integração de modais", disse a secretaria municipal.

O estudo revela ainda que 88% dos paulistanos se sentem pouco ou nada seguros ao andar a pé pela cidade. Apenas um em cada 10 paulistanos afirma se sentir seguro ou muito seguro enquanto pedestre.

Após mudar para um endereço mais próximo ao trabalho, no Itaim Bibi, na zona sul de São Paulo, e vender o carro, o advogado Paulo Arthur Coelho, de 29 anos, tornou-se um pedestre há um ano e meio. Andando a pé e utilizando transporte por aplicativo três vezes por semana, a economia foi de 60% no orçamento.

"Eu morava a cinco quilômetros do trabalho e gastava em média 50 minutos para chegar e 1h10 para voltar. O carro me custava R$ 12 mil no ano, entre estacionamento, gasolina, seguro, IPVA e depreciação", diz ele. "Hoje estou a 15 minutos da porta da minha casa até a minha mesa. Só gasto sapato. É qualidade de vida. Consigo ir almoçar em casa."

Entre as propostas preferidas dos paulistanos para a melhoria da mobilidade urbana em São Paulo, segundo a pesquisa da Rede Nossa, destacam-se a aplicação de multa para veículos que param em cima da faixa de pedestres (87% de favorabilidade); a construção e ampliação de corredores e faixas exclusivas de ônibus (84% de favorabilidade); e a construção e ampliação das ciclovias e ciclofaixas (78% de favorabilidade). 

Já as medidas para a melhoria da mobilidade em São Paulo com menos apoio da população são a aplicação de multas em pedestres (42% de favorabilidade) e o rodízio de 2 dias, ou seja, aumentar o rodízio de carros para dois dias (35% de favorabilidade).

'Prefira o transporte público' 

Para incentivar o uso do ônibus na cidade, a Prefeitura de São Paulo apelou para uma campanha publicitária que pede aos passageiros para usarem o transporte. Painéis serão espalhados em três terminais de ônibus da capital paulista (Sacomã, Capelinha, na zona sul, e A.E. Carvalho, na zona leste) com as frases "Viva o coletivo, prefira o transporte público. Vá de ônibus" e "Prefira o transporte público, vá de ônibus por toda a cidade". 

Os painéis foram instalados por ocasião da Semana da Mobilidade e possuem espaço para as pessoas colocarem o rosto nos corpos desenhados e ainda tirarem fotos. 

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