Arquivo Pessoal
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Paulistano enfrenta dia de caos, ilhado em casa e nos terminais de transporte

Do centro velho à avenida Paulista, moradores de São Paulo enfrentam dificuldade para chegar ao trabalho ou se locomover pela cidade nesta segunda, 10

Gilberto Amendola, Paloma Cotes, Priscila Mengue e Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 13h17

SÃO PAULO - As fortes chuvas que atingiram São Paulo na madrugada e na manhã desta segunda-feira, 10, ilharam os paulistanos, que não conseguiram sair de casa ou tiveram muita dificuldade para se locomover pela cidade. Ruas alagadas, vias interditadas e falta de energia foram algumas das experiências nada agradáveis dos moradores.

As ruas da zona oeste e central da cidade, algumas das mais afetadas, ficaram desertas, lembrando um feriadão. A ligação dessa região com a zona norte foi interditada, impossibltiando o acesso aos viadutos que chegam à Avenida Marquês de São Vicente e vice-versa. 

No horário do almoço, quando o trânsito em geral fica carregado, era possível contar os carros que passam nas Avenidas Sumaré e Paulo VI. Ruas da Vila Madalena, como a Inácio Pereira da Rocha, Harmonia, Girassol e João Moura, também estavam vazias. Poucos pedestres se arriscavam com guarda-chuva. Bares e restaurantes da Vila, praticamente sem ninguém. Na região da Barra Funda, inclusive nas ruas do entorno do terminal, havia poucos ônibus e pedestres.

A diretora de vendas Luciana Paranhos, por exemplo, teve a rotina completamente alterada. Moradora da região da Pompeia, está sem energia elétrica desde às 5h. "O prédio está funcionando com gerador, mas a energia deve acabar logo", conta. Ela foi liberada pela empresa para trabalhar em home office. "Ainda bem que os celulares estavam carregados, mas já estão em 40% e daqui a pouco nem trabalhar vou conseguir mais", diz.

O marido, Alexandre, que é engenheiro, também ficou em home office. Ele trabalha em uma empresa na Lapa, uma das regiões mais afetadas, e a companhia ficou completamente alagada. Além disso,  a motorista que faz o transporte da filha, Beatriz, 13 anos, que estuda em um colégio na região da avenida Paulista, cancelou o serviço. "Ela não estava conseguindo cruzar as marginais e está preocupada, não consegue se locomover, está presa na rua ainda", afirma. 

Luciana chegou a conseguir levar a filha mais velha pra escola, mas o mais novo, Leonardo, de apenas 1 ano e dois meses, teve de ficar em casa. "Não chegou nenhuma funcionária ao berçário onde ele fica e a dona teve que suspender as atividades", diz. A empregada também não foi trabalhar. "Ela mora em um prédio que fica perto da Marginal Tietê e o local está todo alagado."

A queda de energia afetou o terminal Barra Funda de ônibus e metrô, conforme observado pela reportagem do Estado. Um grupo de cinco funcionários de um supermercado da região não conseguiu sair do local e conversava sentado no chão do terminal. Nenhum dos funcionários do turno da manhã conseguiu chegar ao local de trabalho. 

“O primeiro de nós chegou aqui às 5h20 e não consegui sair. A gente foi chegando aos poucos e encontrando por aqui. Só está no mercado quem é do turno da madrugada e agora não consegue sair”, contou Ane Caroline, 23 anos, supervisora de vendas.

Um outro grupo de sete funcionários de uma instituição bancária também se viu preso no terminal, sem poder ir para o trabalho ou voltar para casa. Qual foi a solução? Ir a uma lojinha do próprio terminal e comprar um baralho de UNO. “Foi o jeito que a gente arrumou para matar o tempo. Estamos ilhados. Nunca vi nada igual”, conta Carla Moreira de Aguiar, 22 anos.

Por volta de meio dia, um grupo de 10 atendentes de telemarketing que não tinha sido liberado pelos seus supervisores, apesar de estarem no terminal desde as 7h, resolveu abrir as marmitas e almoçar no chão mesmo. “Disseram para a gente esperar. Se sairmos daqui, vamos ganhar falta. Então, o jeito é esperar”, contou William Souza, 21 anos.

Em outro canto do terminal Barra Funda estava um trio de mulheres conversando. Emmanuelle Pessoa, 36 anos, diretora da escola de ensino infantil Piti Guari, recebeu logo pela manhã um telefonema de duas professoras, a Angélica e a Viviane. Elas informaram que seria impossível chegar na escola. Prontamente, a diretora saiu de casa e foi se encontrar com as funcionárias no terminal. “Agora, estamos aqui nos fazendo companhia. A ideia é que eu posso chegar à escola para saber se existe condições de abrir amanhã. Já elas estão liberadas, claro” , afirmou.

Toda a família Berna também foi afetada pela chuvarada. Os três passaram o final de semana na cidade e tinham passagem para voltar cedinho para o interior. Aline Berna, 28 anos, trabalha de auxiliar em uma padaria. “Já perdi meu dia de trabalho. Essa hora já era para eu estar no serviço”, disse. Já seu marido, João Antônio Carvalho, 31, é porteiro de prédio. “Já avisei no serviço . Acho muito difícil que eu consiga voltar para a minha cidade hoje “, contou. Menos desanimado estava o João Pedro, 8 anos. “Eu tinha aula hoje, mas vou ficar aqui no celular e aula só amanhã”.

Também da mesma região, a leitora Luanda Nera mandou um relato de alagamento na garagem do seu prédio residencial, em uma travessa da Avenida Marquês de São Vicente. Ela mora na rua Dr. Rubens Meireles, 235, perto da Ponte da Casa Verde e conta que ao acordar, às 6h30, já viu pela janela que o posto de gasolina e a avenida Ordem e Progresso (no acesso à Ponte do Limão) estavam totalmente alagados. 

“Tentei falar com os porteiros, mas ninguém atendia. Falei com o zelador pelo celular e descobri que a garagem onde meu carro fica estacionado (na altura da rua) estava totalmente submersa. Não é possível sequer chegar até a porta que dá acesso à garagem. Todos os carros estão com água na altura do teto. Tenho um depósito neste subsolo e, certamente, perdi tudo que está lá dentro. É um quartinho bem grande, com prateleiras, mais ou menos 4m2. Os elevadores não estão funcionando e, agora, ouvimos um estouro e a energia elétrica caiu logo em seguida.”

O centro velho de São Paulo amanheceu com movimento típico de um fim de semana, com ruas e lojas esvaziadas. Com poças pelo caminho, até as obras do Vale do Anhangabaú estão com acúmulo de água. 

Em uma loja de calçados a uma quadra da Prefeitura, ao menos quatro funcionários não tinham conseguido chegar até as 10h30. Os outros três que estavam no local enfrentavam baixa procura.

 "Tem dia que oscila, mas já era para ter um movimento legal. Está bem menos de pessoas. Os poucos que têm guarda-chuva querem ir direto para o trabalho. Geralmente entra só quem molhou o sapato e não quer ficar o dia todo com o pé molhado", conta o vendedor Gilson de Souza, de 35 anos.

No Terminal Bandeira, um dos principais do centro, o sistema de som repetia a cada cerca de 30 segundos: "atenção senhores usuários, devido às fortes chuvas e pontos alagamentos pela região, todas as linhas deste terminal estão operando com atrasos."

Mesmo assim, a engenheira Jéssica Braga, de 25 anos, viu o terminal como alternativa para chegar ao trabalho. Ela saiu de Osasco duas horas depois do normal, às 9h40, à espera da Linha Diamante da CTPM retornar e, depois, pegou um metrô até o terminal para pegar um ônibus até a Vila Olímpia, na zona sul. 

Ela conseguiu pegar um ônibus apenas às 11horas e calcula que levaria pelo menos mais 40 minutos até o trabalho. Normalmente, o trajeto seria feito totalmente em transporte sobre trilhos, que foi afetado pelos alagamentos. 

"Nunca fiz esse caminho, joguei na internet para ver uma alternativa", conta. "Já avisei que iria chegar mais tarde. Nunca passei por isso na vida."

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