PAULISTÂNIA UMA CIDADE E SUA GENTE Online. Siga o Metrópole no Twitter CUPIDO POR PROFISSÃO, ELA JÁ UNIU 4 MIL CASAIS

Cláudya Toledo, de 45 anos, não nasceu com asinhas nem vive flechando ninguém por aí, mas se define como um cupido profissional. Tem até gente do outro lado do mundo, como chineses, em seu cadastro e que paga - e caro - para ganhar um empurrãozinho rumo ao sonho de trocar de estado civil. Em cerca de 20 anos em ação, segundo as suas contas, ela já ajudou pelo menos 8 mil corações solitários a formar 4 mil casais felizes.

ARTUR RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2012 | 03h03

A lista poderia ser ainda maior se Cláudya pusesse na conta o tempo de amadorismo quando, ainda na infância, já sentia uma vontade incontrolável de arrumar alguém para cada um dos encalhados à sua volta. Até para o ex-namorado, o primeiro amor da vida, ela encontrou uma substituta. "Ele foi viajar e, quando voltou, eu estava namorando outra pessoa. Então, disse para mim que se sentia sozinho e apresentei a mulher com quem ele se casou e teve dois filhos", conta.

Demorou, porém, para ela perceber que o dom de formar casais poderia render um bom dinheiro. Antes, Cláudya estudou Publicidade e trabalhou como manequim, "que na época era diferente de modelo fotográfica". Nos três anos em que viveu na Europa, chegou a desfilar até pela grife Pierre Cardin.

Assim que voltou ao Brasil, ela arrumou o mais importante casamento da carreira: o próprio. Como era de se esperar de alguém que dá dicas aos outros, a união deu certo e já dura 21 anos. Depois de se arranjar no mercado matrimonial, Cláudya estava, enfim, pronta para abrir a própria empresa, a A2Encontros.

Na agência de Cláudya, 12 mil pessoas estão à procura de um casamento longevo. Seus clientes, segundo ela, pertencem às classes A e B e não se importam em pagar caro para arrumar alguém à altura das sempre altíssimas expectativas. "É um serviço elitizado, é um 'coaching', um serviço para quem pode, não é um serviço para quem quer", diz.

Com dezenas de pessoas trabalhando para ela, Cláudya afirma que seleciona alguns clientes para atender pessoalmente. "Sempre atendo uns 30 ou 40 VIPs, com renda mensal acima de R$ 100 mil", diz.

Tudo por marido. Nem só os milionários são felizes a dois e buscam a ajuda de Cláudya para achar a cara-metade. Há quatro anos, a bancária Sandra Teixeira jamais havia pensado em procurar uma agência de encontros para ter um marido. "Nunca havia conhecido alguém que tivesse arrumado alguém desse jeito", lembra. Mudou de ideia quando um professor de ioga sugerir a alternativa. "Sempre fui workaholic. Na balada, não achava ninguém. Quem eu encontrava, não queria nada. E eu já tinha 36 anos, queria casar, ter filhos", diz.

Uma vez que a decisão havia sido tomada, Sandra resolver investir alto. Só para entrar no cadastro da agência gastou R$ 4 mil. Assinar o cheque foi só o começo. "Ia para viagens de solteiros, participava de todos os programas oferecidos pela agência", diz. Contando os gastos com viagens e encontros, ela estima ter aplicado até R$ 14 mil.

Na maratona de encontros, chegou a conhecer 17 candidatos ao amor da vida. "Em uma agência de encontros, as coisas são mais direcionadas, você não perde tempo", diz. "Você encontra uma pessoa e é obrigada a decidir se continua saindo com ela. A agência liga para você e cobra. Então, não tem enrolação, você está lá para casar."

Quando encontrou o homem que seria seu marido, Eduardo, de 40 anos, confessa ter pensado que não daria em nada. "A pedido dele, começamos a namorar. E aí foi tudo muito rápido. Em maio nos conhecemos. Em dezembro, compramos a casa para morar juntos", conta. Há um ano e quatro meses, Sandra e Eduardo tiveram Celina. "Meu marido é fenomenal, ele é um maridão, é uma pessoa maravilhosa. Estamos muito felizes."

Geoeconomia matrimonial. Na semana passada, Cláudya embarcou em um cruzeiro em Miami, nos Estados Unidos, que reúne cupidos profissionais de todo o mundo. No encontro, nada de paquera. A discussão é séria. As russas, por exemplo, abandonam seu enorme país natal, cheio de homens desempregados, em busca de melhores partidos no resto da Europa. E a questão, diz Cláudya, não é só econômica. "O homem russo costuma beber muito."

No Oriente, a imigração do amor muda de fluxo. "Estamos em uma fase em que tanto a China quanto a Índia enfrentam a falta de mulheres. Onde está a riqueza financeira nem sempre há a emocional", diz Cláudya. Sem produção própria, a solução para países orientais é importar. Nesse mercado, as mulheres brasileiras são valorizadas. "Mas apenas 8% das mulheres do nosso cadastro aceitariam sair com estrangeiros", afirma. Segundo ela, no entanto, há casos de brasileiras que aceitam tentar a vida amorosa do outro lado do mundo, ao lado de um chinês, por exemplo. "Já consegui (encontrar mulher) para chinês, espanhol, alemão, americano."

Enquanto o mundo todo supervaloriza o nosso produto nacional, os homens brasileiros têm o privilégio de viver no país do superávit feminino - pelo menos é o que mostra o cadastro da clientela de Cláudya, onde há 60% de mulheres. E, aparentemente, elas não exigem muito. "As mulheres procuram um homem idôneo e comprovadamente livre, que queira relacionamento estável. É lógico que também querem alguém forte, inteligente, com objetivos parelhos." Os homens, por outro lado, miram qualidades mais "palpáveis". "Eles querem uma mulher atraente sexualmente, bonita e amorosa. Também estão querendo mulheres que se sustentem, que tenham objetivo de vida", conta Cláudya.

Hora extra. Desde 2009, Cláudya resolveu colocar no papel suas conclusões sobre como casar e manter a união feliz. O começo foi mais difícil, mas um "personal writer" deu um empurrão. Agora, ela está prestes a lançar seu quarto livro, Manual do Amor. O último que publicou, Sexo e Segredos dos Casais Felizes, já vendeu 52 mil cópias. "Para o Brasil, é bom."

Mãe de dois filhos, um menino de 14 anos e uma garota de 10, ela já começa a ver a trajetória amorosa dos rebentos com olhos profissionais. E a fama de quem desencalha qualquer um já a está obrigando a fazer hora extra em casa. "Os amiguinhos deles vêm me procurar. Eles perguntam: 'Tia, por que a menina falou isso pra mim? Por que ela foi embora? Por que ficou com outro?"

Mesmo de folga, Cláudya não desliga o radar. "Quando vou aos lugares, sinto quem combina com quem. Encaro tudo isso como uma missão."

Cláudya Toledo desencalhou até o

ex-namorado e agora mira o exterior

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