Paulistânia. Uma cidade e sua gente - Ela troca sonhos e ouve casos de amor

Manhã de domingo, Avenida Paulista, ícone da maior metrópole do País - a cidade cinza, dura, onde não há amor, dizem alguns poetas urbanos. A artista visual Ana Teixeira, de 54 anos, está sentada em uma cadeira e tricota, sozinha, uma peça de lã vermelha. Ao seu lado, estão uma segunda cadeira, vazia, à espera de alguém, e uma placa: "Escuto histórias de amor". Nesse dia, apenas uma moça que passava pela via se dispôs a contar sua vida enquanto Ana "trabalhava".

CAMILA BRUNELLI, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2012 | 03h05

Após pouco mais de 24 horas, já na segunda-feira passada, a história mudou. Depois de postar uma foto tricotando em seu perfil em uma rede social, Ana recebeu mais de 500 pedidos de amizade e a sua foto foi compartilhada por 2,5 mil pessoas.

"Quando acordei e entrei na internet, achei que tivesse dado algum problema no site", diz. "Acho que o amor é um tema que deve interessar às pessoas", afirma Ana, que se dispõe a ouvir essas histórias, esporadicamente, quando tem vontade, desde 1998.

Ana já levou essa iniciativa a oito países - Alemanha, Portugal, Itália, Espanha, Canadá, França, Chile e Dinamarca. Ela manda fazer cartazes com os dizeres na língua local e se instala em pontos turísticos, onde começa seu tricô. "Geralmente, me coloco em lugares onde já há camelôs vendendo outras coisas, porque quero ofertar algo que não está lá. A ideia é causar esse 'curto-circuito'", diz.

A reação das pessoas é a mesma em todos os lugares: foram poucas as histórias relatadas nos diversos países visitados. Ana ouviu cerca de 30 casos e Veneza, na Itália, foi a única cidade em que ninguém quis conversar. Em Santiago, ouviu, por outro lado, oito relatos. "Passei dez dias na cidade e ouvi histórias que mudaram a minha vida."

Na época separada do marido havia três meses, Ana voltou ao Brasil e reatou o casamento. "Ele morreu dois anos depois. Foram os melhores anos da nossa vida", lembra, ao falar do amor responsável por trazê-la a São Paulo, em 1996. Nascida em Caçapava, no interior, ela vivia em Belo Horizonte.

Na terça-feira passada, Ana sentou em outro ponto da Avenida Paulista, a pedido do Estado: na frente da Casa das Rosas. Alguns passantes perguntavam se ela cobrava, outros faziam fotos. Houve também quem soltasse: "Só em São Paulo mesmo!" Muitos ensaiaram, mas apenas três passantes se sentaram.

A coordenadora Vanessa Monteiro, de 31 anos, foi a única que revelou sua história. Vanessa conheceu Rodrigo Zulim, de 33, em uma micareta, há sete anos. Começaram a sair e, depois de quatro meses, veio Giovanna, hoje com 6 anos de idade. Os dois oficializaram a união, há dois anos, mas somente agora em maio vão fazer um festa para 200 convidados. "Vou casar de vestido branco, véu e grinalda, com tudo que eu tenho direito", diz. Sua filha será a dama de honra.

Ana foi reconhecida na Paulista. Uma jovem se aproximou com uma rosa na mão: "Não é você a moça que ouve histórias de amor?" A secretária executiva Claire Martins, de 27 anos, disse que viu a foto da artista em uma rede social. "Fiquei muito emocionada. Nós também estamos sentindo amor por você."

Pelas ruas. Ana já executou outros projetos em vias públicas. De 2003 a 2010, ela trabalhou com uma banca de camelô, em que propunha às pessoas outras identidades: as cédulas de identificação eram sem nome, número ou foto e recebiam carimbos com frases. O dono do novo RG deixava uma impressão digital no caderno da artista.

O projeto "Troco Sonhos" foi focado na ambiguidade da palavra. Ela convidava os passantes para trocar o sonho dela (pequenos doces recheados) por outro sonho deles.

Ana ouve, troca e retrata sonhos e amores, embora prefira falar pouco dos seus. Não quis comentar, por exemplo, sobre seus dois filhos. Diz não acreditar no amor, "trata-se de invenção da sociedade". "O amor é o tema que escolhi para esse trabalho, mas poderia ser outro. A minha intenção é só criar um ruído no cotidiano."

Pelas ruas da capital, Ana Teixeira convida quem quiser a sentar e falar da vida

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.