Patrocínios milionários financiam luxo, mas não garantem títulos

Nos últimos 20 anos, só 6 campeonatos foram conquistados à custa de investimentos externos. Quatro pela Beija-Flor

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

07 Março 2011 | 00h00

Os patrocínios milionários que se multiplicam pelas escolas de samba enchem os olhos dos dirigentes e de muito carnavalesco, mas não costumam ganhar carnaval. Nos últimos 20 anos, apenas seis campeonatos foram conquistados à custa de investimentos externos. Quatro pela Beija-Flor, que foi ajudada por governos do Amapá ao Rio Grande do Sul. Os chamados "enredos turísticos" deram sorte à escola em 1998, 2004, 2005 e 2008. Neste ano, a agremiação de Nilópolis contou com R$ 2 milhões da Nestlé para confeccionar alegorias e fantasias que contam a trajetória do cantor Roberto Carlos, ele próprio patrocinado pela multinacional em suas turnês.

Foi um caso em que o enredo precedeu o patrocínio. Nem sempre é assim. O desfile sobre cabelos será da Vila Isabel - a mesma que, em 2006, conquistou o sambódromo com cores da "latinidade", garantidas por Hugo Chávez, por meio da estatal de petróleo venezuelana PDVSA. Mas a empresa patrocinadora, a multinacional Procter & Gamble - dona da ideia, dos R$ 4 milhões investidos e do passe da garota-propaganda Gisele Bündchen, que virá no último carro alegórico -, havia procurado primeiro o Salgueiro. A presidente, Regina Duran, rejeitou esse patrocínio. Acabou fechando outro, com a Prefeitura do Rio, que sugeriu que a agremiação falasse do tema "O Rio no Cinema". "Patrocínio não vence carnaval. O outro enredo não era bom e achei que não valia a pena. Mas quando alguém fez alguma coisa sem dinheiro?", provoca Regina, que recebeu R$ 3 milhões.

Fernando Horta, da Unidos da Tijuca, conta que "ainda não conseguiu unir o útil ao agradável". "Já me ofereceram várias vezes, mas não é nossa linha. Prefiro arrumar parcerias e ganhar dinheiro com shows."

Paulo Barros, campeão pela Tijuca e afeito a enredos pouco convencionais - neste ano, o tema é "Esta noite levarei sua alma" -, deixa claro: "Se tiver de fazer um enredo patrocinado a partir de uma decisão de uma escola, eu até faço, mas não me cobrem nada. Não faço qualquer coisa. Faço o que eu acho que é bom para carnaval."

A Mocidade não se constrange com o fato de ter escolhido falar de festas agrícolas ao longo da história da humanidade por conta do polpudo auxílio de R$ 2,6 milhões da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária, transformado no enredo "Parábolas dos Divinos Semeadores". Tampouco a Grande Rio, que, depois de ver quase 100% de seu barracão queimado no dia 7 de fevereiro, precisou ainda mais do auxílio das empresas catarinenses, que turbinam seu desfile sobre Florianópolis. O valor ficou "entre R$ 2 e R$ 4 milhões".

Escolas contam com cerca de R$ 5 milhões da prefeitura e da Liga das Escolas de Samba, vindos da venda de CDs e ingressos, apoios dos governos municipal, estadual e federal e outras rendas. Acham o valor insuficiente.

O publicitário Carlos Perrone, que há nove anos faz intermediação entre empresas e escolas de samba do Rio, é o primeiro a clamar pelo bom senso. ""Salve o Bombril aí, gente!" seria ridículo", brinca. "Também sou purista. Mas não dá para querer que a Prefeitura pague tudo."

Foi Perrone quem neste ano fez a ponte do carnaval com a Procter & Gamble e as empresas de Santa Catarina. Em 2002, com seu empurrão, o Salgueiro, patrocinado pela TAM, conseguiu um terceiro lugar, cantando em versos "o orgulho de ser brasileiro", slogan da companhia aérea. "É verdade que patrocínio não ganha carnaval, mas sem recursos também não se ganha. Nenhuma escola patrocinada jamais foi rebaixada, por exemplo. Para a empresa, é melhor do que qualquer anúncio", acredita ele, que no Sábado das Campeãs levará à Sapucaí executivo argentino com quem pretende negociar já para o ano que vem.

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