Epitácio Pessoa/AE
Epitácio Pessoa/AE

Patrimônio está aos pedaços em Guarulhos

Antiga fazenda de escravos, Casa da Candinha deveria ter virado parque em 2010

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h04

Parte importante da história da Região Metropolitana de São Paulo, a Casa da Candinha, em Guarulhos, está fechada para visitação e com visível necessidade de obras de manutenção. Trata-se da casa-grande da antiga Fazenda Bananal - que dá nome ao bairro. Em 1597, o local já mantinha escravos para exploração mineral na região.

"Há registros de que essa área foi foco de atividade mineradora 100 anos antes do início da exploração em Minas Gerais", explica o historiador Elmi El Hage Omar, autor do livro Casa da Candinha - Ruptura e Metamorfose, publicado em 2011, e diretor da Associação dos Amigos do Patrimônio e do Arquivo Histórico. "A Fazenda Bananal era enorme, ocupava o equivalente a 10% do atual município de Guarulhos."

A construção que existe no local não foi a primeira sede da fazenda. "Trata-se de uma casa erguida entre 1800 e 1850", afirma Omar. "Alguns acreditam que o porão da casa tenha servido de senzala, mas isso não é comprovado. Acredito que a senzala tenha funcionado em outra construção próxima, da qual restou apenas um muro de taipa de pilão."

Arquitetonicamente, a casa pode ser considerada exemplo tardio do barroco, raro remanescente do período. A posse das terras - e, por consequência, da casa - foi passando de família em família até 2004, quando a prefeitura de Guarulhos declarou o espaço área de utilidade pública.

O projeto é transformar o patrimônio em Parque Natural Municipal da Cultura Negra Sítio da Candinha. E a casa, em sede de memorial que conte a história do trabalho escravo no local e reforce a importância da cultura negra na sociedade atual.

O parque foi criado por lei municipal de 2010. Mas, desde que a prefeitura administra o espaço, pouco foi feito. "Se eu fosse o senhor, nem tentava entrar lá, não. A coisa está tão feia que vai acabar despencando", disse um morador da vizinhança, quando a reportagem buscava informações sobre como chegar ao local.

As telhas originais foram retiradas porque o teto corria o risco de desabar e foi colocada cobertura provisória. "Espero que tenham guardado as telhas antigas para que, em um futuro trabalho de restauro, elas sejam recuperadas e colocadas de volta", afirma o historiador Omar.

Acesso vetado. A prefeitura pouco informa sobre a atual situação. Esclarecimentos foram pedidos por telefone e por e-mail desde 15 de maio e as poucas informações que chegaram foram por escrito. Todos os pedidos que a reportagem fez para visitar o local foram negados, sob a justificativa de que os monitores que "orientam a visita estão com agenda cheia" e as "visitas, suspensas". Eles também desaconselharam a visita espontânea do Estado, argumentando que "é fácil se perder".

A reportagem foi até a fazenda em 21 de maio. Encontrou os portões fechados. Uma funcionária disse que, infelizmente, não podia permitir a entrada, já que tinha ordens expressas do prefeito para não deixar jornalistas visitarem o espaço.

Em blogs sobre patrimônio histórico e fóruns de debate na internet, usuários lamentam o atual estado da Casa da Candinha. "Abandono" e "caindo aos pedaços" são alguns dos adjetivos que mais aparecem.

De acordo com a Assessoria de Imprensa da Secretaria do Meio Ambiente de Guarulhos, atualmente encontra-se em elaboração um o plano de manejo do Parque da Candinha. "Tal estudo prevê a elaboração de um diagnóstico e planejamento integrado, incluindo elaboração de programas ambientais, oficinas participativas e definição de zona de amortecimento e áreas estratégicas para gestão da Unidade de Conservação", afirmou, em nota. Segundo o órgão, a previsão de conclusão desta etapa é dezembro deste ano.

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