Patente de bonecos gigantes vira polêmica em Olinda

Empresário ainda criou modelos imitando políticos e personagens do cinema, que desfilam na véspera do encontro tradicional

Angela Lacerda, O Estado de S.Paulo

09 Março 2011 | 00h00

Uma das marcas do carnaval de Olinda, os bonecos gigantes fizeram ontem seu 24º encontro pelas ruas da cidade histórica em meio a uma polêmica. O organizador do evento, Silvio Botelho, de 52 anos - 37 dedicados aos bonecos gigantes - teme sua descaracterização.

Além de patentear a marca "bonecos gigantes de Olinda", o empresário pernambucano Leandro Costa realizou por três anos consecutivos na segunda-feira de carnaval, véspera do tradicional encontro, a "Apoteose dos Bonecos Gigantes".

Ao contrário dos gigantes criados e confeccionados por Botelho, que primam por reverenciar e retratar valores da cultura local, os de Leandro levaram anteontem às ladeiras da cidade figuras do terror cinematográfico americano, como Chucky e Freddy Krueger, além de personalidades como Michael Jackson, Barack Obama e a presidente Dilma Rousseff.

"É a banalização dos bonecos gigantes", reagiu Botelho, temendo que em breve até personagens de Walt Disney, como Mickey e Pato Donald, virem personagens gigantes do carnaval de Olinda. Para ele, "pirataria" e "oportunismo" marcam a iniciativa de Castro. "Nós lutamos por décadas para criar um conceito, uma marca, dando vida a personagens genuínas da nossa cultura e agora chega alguém para se apossar de uma patente que é do povo", afirmou, indignado.

O bonequeiro confeccionou seu primeiro boneco, O Menino da Tarde, em 1974. Na época, só existiam O Homem da Meia-Noite, de 1932, e A Mulher do Dia, de 1967. Em 1985, já eram cem bonecos gigantes.

Botelho, que já criou 872 bonecos gigantes, diz ter enfrentado muitos obstáculos para popularizá-los, mas nunca passou por sua cabeça patentear a marca. "Não sou o dono dos bonecos, eles são um patrimônio de Olinda, de Pernambuco", destacou, garantindo ter prazer em ver gente expandindo a arte. "Não aceito é alguém chegar de paraquedas, copiar e se apossar da história dos outros. Fazer (o desfile) no mesmo lugar e com o mesmo nome é muita falta de ética, é ser muito cara de pau."

Leandro Castro diz não querer polemizar e explica que seu trabalho tem um conceito diferente, com enfoque empresarial. Ele pretende retratar, por meio dos bonecos personagens da História do Brasil, figuras da Igreja Católica, políticos internacionais e personagens vinculados ao terror. A ideia é fazer bonecos com maior identificação com o Sudeste do País.

A patente "bonecos gigantes de Olinda", que detém desde 2009, foi, segundo ele, "uma precaução", para que não fosse impedido de usar a marca, que é também seu site na internet. Castro criou a Embaixada dos Bonecos Gigantes, que funciona no Bairro do Recife Antigo, com uma exposição permanente e destaca que até a fabricação dos bonecos é diferente. Os da embaixada são feitos com gesso e fibra de vidro. Os de Botelho, com isopor e papel machê.

Sem problemas. Embora reconheça o evento promovido por Botelho como "o grande encontro dos bonecos tradicionais", a prefeitura diz não ter ingerência em um carnaval de rua marcado pela espontaneidade e não vê problema na rivalidade. Para a secretária municipal de Cultura e coordenadora do carnaval, Márcia Souto, os bonecos gigantes são patrimônio da cidade e estão acima de qualquer coisa. "Essa patente é inócua. Os bonecos gigantes de Olinda são de domínio público", garantiu. "A vida e o tempo vão mostrar que os bonecos gigantes de Olinda são estes aqui", afirmou, apontando para cem bonecos, de mais de três metros de altura, que se preparavam para deixar o Largo do Guadalupe com três orquestras de frevo.

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