Pastor belga e rottweilers fazem a 'segurança' a partir das 20h

Constatação foi feita por funcionários da própria Secretaria de Saúde; segundo a clínica, os cachorros são 'dóceis'

O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2012 | 03h03

Cachorros como vigias. Segundo relato da própria Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, quatro cães da raça rottweiler e um pastor belga cuidam da segurança dos quartos a partir das 20 horas, quando os internos são presos em espaços com grades nas portas e nas janelas. Durante o dia, os animais também são soltos, mas em menor número.

Além de serem submetidos a um tratamento inadequado, e até perigoso, os dependentes só podem receber visitas uma vez por mês. É nesse momento que os familiares devem entregar medicamentos à direção da clínica, que, irregularmente, repassa os custos aos parentes. E não apenas os custos com medicação, mas também de quaisquer objetos quebrados pelos pacientes, como um televisor, por exemplo. Há relatos na secretaria de que a família de um paciente foi coagida a pagar um novo aparelho e até a taxa do frete de entrega na clínica.

Para o deputado estadual Adriano Diogo (PT), a forma como a clínica Decisão trata os internos remete aos antigos manicômios. "Com o advento do crack, essas clínicas terapêuticas estão se proliferando sem fiscalização e, pior, com financiamento público. A coisa está muito grave. Há informações sobre quartos de castigos. Isso mostra que os manicômios não fecharam, como se dizia, apenas têm outros nomes", afirma.

O Ministério Público Estadual informou que não teve acesso à clínica. Em maio, técnicos da Promotoria da Saúde visitaram todas as unidades credenciadas à Prefeitura, exceto a Decisão, que não agendou uma data para a inspeção. O relatório final do órgão mostra que cerca de um terço apenas dos pacientes internados logo no início da operação policial na cracolândia, em janeiro, continuava em tratamento. Metade havia desistido.

'Faltou informação'. O proprietário da clínica Decisão, Claudio Lemos, reconhece que não comunicou a morte do paciente Davi da Silva à Secretaria Municipal da Saúde, mas nega problemas na infraestrutura oferecida aos usuários. Segundo ele, a falha na comunicação ocorreu por falta de informação. "Ninguém disse que teríamos de enviar um relatório sobre as pessoas internadas", afirma.

Segundo Lemos, Davi não sofreu queimaduras no incêndio, mas inalou fumaça e, como já estava debilitado, não resistiu. O responsável negou a existência de um "quarto de castigo" e disse que os "cães soltos à noite são dóceis". / A.F. e CAMILA BRUNELLI

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