''Passei três dias trancada''

Quando Verônica Soares deixou João Pessoa (PB), aos 17 anos, com o marido e o filho de 1 ano, nunca tinha ouvido um tiro. Mudou-se para o Rio, para que o marido, o contínuo João de Moura, tivesse mais chance de emprego. Há nove anos, vive na Vila Cruzeiro. E acompanhou, trancada em casa, o pior confronto na região.

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2010 | 00h00

Terça-feira, 23 de novembro. "Estava em casa, com a minha filha, Tamires, de 1 ano e 3 meses, quando o tiroteio começou. Já estava acostumada a ouvir tiros. Dessa vez, era em todo lugar. A minha filha ficou muito apavorada. Ao meio-dia, a escola liberou as crianças, mas não deixou que voltassem sozinhas. Fui buscar meu filho, Vitor, de 10 anos. Dava medo andar na rua. Tudo fechado. Ficamos os três trancados em casa. Aí faltou luz. Ficou pior. Nossa casa não tem janela. Estava muito calor. Meu marido não tinha como voltar para casa. Os ônibus e o trem pararam. Ele teve de andar muito, chegou depois da meia-noite."

24 de novembro. "A madrugada foi de muito tiro, mas mesmo assim meu marido foi trabalhar. Vitor nem foi para a escola. Não deixei. Ele já está acostumado a brincar em casa. A Tamires continuou chorando muito. Não saí de casa porque morro de medo de bala perdida."

Quinta, 25. "Quando os tanques chegaram, pensei: "É mesmo uma guerra." Todo mundo veio para o portão ver o que acontecia. Ficamos assustados e ao mesmo tempo curiosos. A luz voltou e começamos a acompanhar as notícias pela TV. Quando vi a imagem de um monte de homem correndo no alto do morro, pensei que era a polícia. Nunca imaginei que era bandido, que tinha tanto bandido assim. Fiquei impressionada."

Sexta, 26. "Começaram a cercar o Alemão e a coisa acalmou. O Vitor ficou vendo pela TV e queria ficar falando da ocupação, mas não quero que ele fique vendo essas coisas. Não é assunto de criança. Minha mãe e minhas irmãs ficaram ligando. Todo dia elas queriam saber como estava a guerra. Teve muito exagero, falando que era guerra. Não acho que foi tanto assim, mas não foi bonito de ver."

Sábado, 27. "A coisa ficou mais calma aqui. Fui com meu marido no mercado, porque já não havia mais nada em casa, após quatro dias trancados. A sorte é que a geladeira estava cheia."

Domingo, 28. "A gente viu pela TV que a polícia tinha tomado o Alemão. Não teve tiro, mas achamos melhor não sair de casa. Fiquei assustada com tanto tiroteio, mas não pensei em voltar para a Paraíba. Aqui é mais fácil arrumar emprego."

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