Passada a polêmica, Geisy Arruda aposta tudo no carnaval

Mais magra (e mais loira), estudante alvo de assédio na universidade será destaque da Gaviões e Porto da Pedra

Gabriel Pinheiro, estadao.com.br

01 Fevereiro 2010 | 12h24

 

 

SÃO PAULO - Aos 20 anos, Geisy Arruda tem vivido um conto de fadas para uma garota pobre. Na semana passada, a estudante de turismo que ganhou as manchetes em novembro após um episódio de bullying na Uniban que virou caso de polícia e processo milionário recebeu a reportagem do estadao.com.br na Clínica Paulista de Cirurgia Plástica, no Ibirapuera, onde faz tratamento estético completo. Com um vestido preto - e curto -, Geisy fez questão de servir café a este repórter antes da entrevista em que falaria sobre a preparação para o carnaval e, inevitavelmente, o incidente que lhe deu notoriedade. A primeira pergunta não poderia ser outra: e o vestido rosa? "Está na delegacia. Virou objeto de inquérito". Quando entrou na hidromassagem da sessão de cromoterapia, falou alto, com um sorriso no rosto: "Escreva na matéria, é a primeira vez que eu entro numa dessas. Sou pobre, vocês estão achando o que?"

 

Neste ano, também pela primeira vez, a estudante irá desfilar nos carnavais de São Paulo (pela Gaviões da Fiel) e Rio (na Porto da Pedra). Em terras cariocas, vale dizer, Geisy irá vestida como Elizabeth I, conhecida na História como a Rainha Virgem. "Ela enfrentou muito preconceito porque chegou ao trono e não era casada", justifica. O nome do samba-enredo da escola também parece brincar com a história de Geisy: Com Que Roupa Eu Vou? Pro Samba Que Você Me Convidou. Antes de se tornar conhecida, a jovem de Diadema, subúrbio do ABC Paulista, que agora se confunde facilmente com uma patricinha da Zona Sul, passava seus carnavais em frente à televisão. Agora, ela aposta tudo nos desfiles. "Depois, não sei como fica minha vida", admite. Leia a entrevista a seguir:

 

Como surgiu a proposta das escolas?

 

Primeiro fui convidada pela Porto da Pedra. Depois a Gaviões me ligou, perguntando se havia interesse. Até então só ia desfilar no Rio de Janeiro, porque achava que em São Paulo também seria muito corrido, e como eu fiz uma cirurgia bem grande pensava que não daria conta, minha recuperação seria prejudicada. Mas quando recebi o convite já estava melhor, e aceitei. Vou vir como destaque, no segundo carro. Usarei um biquíni muito luxuoso, cheio de cristais, no carro que irá representar a evolução da escola. No Rio, vou estar com um vestido, representando a rainha Elizabeth, que viveu e morreu sob preconceito.

 

Como eram seus carnavais no passado?

 

Era em casa, sentada na frente da televisão, assistindo aos desfiles. É claro que eu tinha vontade de desfilar, mas o carnaval é muito caro. Tem que pagar as fantasias, ir sempre à escola, tem todo um custo. E eu hoje não vou pagar nada, foi tudo de graça.

 

E a cirurgia de lipoaspiração, quando você decidiu fazê-la?

 

A minha cirurgia surgiu de uma conversa entre eu e o cabeleireiro Julinho do Carmo, no salão dele. Nós falávamos sobre o carnaval, sobre a importância da beleza, e eu não podia estar do lado daquelas mulheres daquele jeito. Não iria me sentir bem. Aí ele falou do médico que ele conhecia, a gente entrou em contato e ele nos passou o valor. Então precisávamos correr atrás de dinheiro. O Julinho começou a fazer uns contatos, ele é extremamente querido e conhecido, e conseguiu, digamos assim, não sei se foram doações... De algumas amigas empresárias milionárias dele. Para elas R$ 5 mil ou R$ 7 mil não compram nem uma bolsa. Para mim, mudou minha vida. Ele conseguiu o dinheiro e foi à clínica, que fez um preço camaradinha. Ficou em torno de R$ 34 mil.

 

Como foi a cirurgia?

 

Fiquei dez horas numa mesa, tirei cinco litros de gordura, o máximo que se pode tirar, sofrendo. Depois da cirurgia eu não conseguia tomar banho, realmente é um sofrimento em prol da beleza. Não é qualquer mulher que aguenta. Na primeira semana você chora, dá arrependimento. Aí na segunda semana já não dói tanto, na terceira você não sente mais nada e quer sair pulando. Mexe muito com o psicológico. Tudo pelo carnaval.

 

Valeu a pena?

 

Valeu. Eu sou muito vaidosa. Para mim foi um presente.

 

Como é essa relação com o Julinho do Carmo?

 

Ele é um anjo para mim. Ele é a pessoa que cuida do meu cabelo, da minha imagem. É alguém que se eu precisar de uma alguma coisa, ele liga e marca. Porque eu não tenho assessoria de imprensa, ainda não achei alguma em que eu confiasse. E ele para mim tem sido um grande amigo. A amizade começou quando ele me viu na televisão com o cabelo horrível e ligou para minha casa, perguntando se eu não queria cuidar do cabelo, alongá-lo. É uma amizade sincera. Às vezes, não tenho dinheiro para pegar um táxi, para comprar alguma coisa, e ele paga para mim. Ele me mima muito.

 

Você ficou conhecida de uma forma muito rápida. E se as pessoas te esquecerem amanhã?

 

Isso pode acontecer com todo mundo, principalmente comigo. Seria uma coisa normal, eu pretendo fazer outras coisas, viver outras coisas.

 

Quando você olha para trás e vê aquele episódio na Uniban, o que sente hoje?

 

Vejo que aquelas pessoas me julgaram, me ofenderam sem ao menos saber o que estava acontecendo. Eu acho que hoje (os alunos) devem se arrepender. E a Uniban tomou uma postura no caso totalmente errada. Para eles era mais fácil expulsar uma aluna do que perder vários. E até mais barato. Então, eles se voltaram contra mim. Mas a opinião pública se voltou contra eles. E mesmo assim, até hoje eles se voltam contra mim. Fui reprovada por faltas, e alegaram que eu não tinha feito as últimas provas, em dezembro. A gente entrou na justiça. Não é que eu não fui porque não quis, não fui porque não tinha segurança nem condições para eu voltar. Havia toda aquela pressão. E o juiz entendeu isso, mandou abonar as faltas e vou fazer aquelas provas finais em fevereiro. Eles recorreram para que a justiça voltasse atrás, mas o juiz disse que não havia por que recorrer. Então, em 18 de fevereiro vou dar início às provas.

 

Essas provas são para você não perder o primeiro ano?

 

Isso. E imagina você fazer uma prova daquilo que você viu há cinco meses. Mas mesmo assim, fui atrás de cadernos, apostilas, provas anteriores. Agora é uma questão de honra. Tenho boas notas no primeiro semestre. Eu sei que eles vão dificultar, que serão as provas mais difíceis do mundo, vai ter toda uma pressão. Mas para mim é importante, demais, ir bem. Quero calar a boca deles e passar de ano, mas não quero continuar lá. Vou procurar uma universidade que me aceite, respeite e proteja. Que me ofereça proteção. Quero continuar a estudar turismo, mas não lá. Não tem nem lógica.

 

Você está processando a Uniban?

 

Sim, em R$ 1 milhão. São sete crimes que a Uniban será acusada, como cárcere privado e injúria. Meu advogado, particularmente, irá processá-los porque eles disseram que ele estaria recebendo seus honorários de uma emissora de televisão. Isso é uma grande mentira. Eu fiz um acordo em que ele só ganha se eu ganhar, e quando ganhar. Então agora tudo ele faz do bolso dele. E também entramos com um pedido na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para que o advogado da Uniban fosse até lá e se justificasse, porque em uma entrevista ele disse que eu era estelionatária e uma pessoa desonesta. Ele como advogado não pode dizer isso.

 

De alguma forma essa história acabou sendo positiva para você?

 

Sim, claro. Devido aos vídeos que foram postados na internet não tem como dizer que eu estou mentindo. Com a mídia toda sabendo, consegui um advogado ferrado após aparecer em um programa de televisão. A exposição toda me deu muita força. Eu tive como me defender. Sem isso eu iria para casa, ia ficar por isso mesmo, e eu não iria mais estudar. Seria apenas mais uma que sofreu e foi humilhada em público.

 

E depois do carnaval, qual é a sua meta?

 

O carnaval foi um presente para mim. Depois de tudo, foi um conforto. As pessoas se sensibilizaram comigo, recebi muito carinho. Por ora, eu vivi para o carnaval. Depois, não sei como fica minha vida. Eu só sei como será até o dia 15 de fevereiro.

 

Mas você disse que não quer parar de estudar, não? Considera trabalhar em turismo?

 

Sim, estudar sempre. Turismo é uma faculdade que eu quero terminar porque gosto, mas posso intercalar com outros cursos. Estudar para mim nunca foi problema, eu só não estudei mais porque não tinha dinheiro. Fazia curso de inglês, espanhol, computação, mas acabou ficando muito caro e desisti. Então, talvez termine meus cursos de idioma, ou estudar teatro. Fiz curso de teatro na escola pública, se eu conseguir retomar será bastante interessante. E é bom estudar porque eu fico muito chateada quando, apenas pelo fato de eu me vestir de forma ousada, as pessoas me comparam a certas mulheres. Eu não tenho nada contra você usar o seu corpo para conseguir dinheiro, mas eu não gosto de ser posta dessa forma vulgar, como às vezes me colocam. Eu não sou isso.

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