Imagem Jairo Bouer
Colunista
Jairo Bouer
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Parou por quê?

Na terça-feira passada, a seleção brasileira parou diante de uma poderosa Alemanha. Muitas teorias foram levantadas para explicar a razão do curto-circuito que imobilizou nossos jogadores em campo e permitiu que os alemães fizessem quatro gols em seis minutos - talvez o momento mais triste da história do Brasil no futebol. Um misto de vergonha, decepção, raiva e pena tomou conta das nossas emoções.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2014 | 02h01

Em resumo, nossos teóricos (e são muitos no País) se dividem em duas opiniões básicas.

A primeira é de que a seleção vinha jogando mal desde o começo da Copa, tanto do ponto de vista técnico como tático. Chegou até onde chegou impulsionada pela torcida, pela sorte e por momentos de talento individual, principalmente de Neymar, e, ao encontrar um grande adversário, simplesmente derreteu.

A segunda é de que houve um "apagão" emocional. Os jogadores não seguraram a onda de tomar um gol logo aos dez minutos, se desorganizaram, ficaram nervosos, não sabiam o que fazer e pareciam jogar como um time de adolescentes, no recreio, fazendo uma "pelada" no campinho da escola. As emoções já estariam à flor da pele desde o início da Copa, com crises de choro, a "obrigação moral" de apagar a derrota de 1950 no Maracanã, o Hino cantado nos estádios à capela por milhares de compatriotas etc.

A psicologia do esporte foi ovacionada por um lado e execrada pelo outro. Falta equilíbrio emocional? Chama-se uma psicóloga que vai motivar, colocar para cima, tranquilizar, dar um sentido de "time", enxugar as lágrimas, trabalhar o emocional dos nossos talentos! Salve Freud e seus discípulos! Não funcionou? Esqueçam as emoções! O problema é tático e técnico mesmo!

Fico aqui pensando, embora esteja longe de ser um bom entendedor das complexidades do futebol, que, assim como um jato que cai ao tentar decolar ou explode em pleno voo, quando uma catástrofe se abate sobre nossa seleção, não existe uma causa única, mas uma sequência de erros que nos levou ao fundo do poço.

Convocação, escalação, método ultrapassado, excesso de exposição, dependência de um ou de outro jogador, pressão por jogar em casa, falta de foco e concentração, labilidade emocional, política misturada com futebol, interesses econômicos, falhas táticas, estratégia capenga e muitos outros fatores que podem ter feito nosso sonho ir pelos ares.

Paralisia. Não foi só a seleção que parou nesse último mês. O Brasil parou para ver a seleção parar. Menos trabalho, menos aulas, menos vendas. Não me lembro de um mês nos últimos anos em que foi tão difícil fazer até as tarefas mais banais. O clima de Copa quase forçou um feriadão de 30 dias. Ok, foi bonito ver que o País conseguiu organizar (com alguns problemas, claro) um grande evento, mas será que era necessário puxar o freio? Fico aqui me perguntando se os outros países que promoveram uma Copa passaram pelo mesmo efeito. Imagino que não! Será que precisava de tanta paralisia?

A Copa, porém, trouxe outros efeitos colaterais, como mostram pesquisas e notícias relacionadas à saúde e ao comportamento. Nunca se bebeu tanto em algumas cidades, por tanto tempo. Alguns trabalhos mostraram que, independentemente do resultado dos jogos e relacionada aos teores alcoólicos mais elevados, a violência doméstica cresceu. As apreensões de droga foram recordes. Mais gente, embalada pelas fortes emoções dos jogos - vejam elas aqui, novamente -, sofreu um enfarte. Até mesmo menos sexo em casa foi uma queixa de muitas mulheres! Em contrapartida, nas ruas, a prostituição ganhou maior freguesia.

Com ou sem ressaca, a Copa acaba hoje. Hora de superar frustrações e focar no que tem de ser feito daqui para frente. Daqui a quatro anos tem a Copa da Rússia! Até lá, muito vai ser dito e feito, mas quem sabe a gente consiga pensar em estratégias que façam com que o País e a seleção parem menos e sempre tão antes da hora.

*Jairo Bouer é psiquiatra

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.