Parentes relatam horror de perder entes queridos na chacina

Parentes relatam horror de perder entes queridos na chacina

Dezoito pessoas foram assassinadas na noite de quinta-feira em Osasco e em Barueri; suspeita é que PMs estejam envolvidos

Rafael Italiani, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Leia relatos dos que perderam parentes ou amigos na chacina em Osasco e Barueri. A série de ataques, na noite de quinta-feira, 14, resultou na morte de 18 pessoas.

‘MAL TEVE TEMPO DE SE LEVANTAR’

Artesão que confeccionava guias de Candomblé, Eduardo Oliveira dos Santos, de 41 anos, morreu na mesa de um bar em Osasco. Sem pais ou familiares, a única pessoa que fazia parte da vida dele era o companheiro Jean Fábio Lopes, de 34 anos, que trabalha como ajudante em uma lanchonete. Eles estavam juntos há cinco anos e moravam na mesma casa, perto da Rua Moacir Sales D’Ávila, onde o artesão foi morto.

“Fiquei sabendo por telefone que algo grave tinha acontecido com ele, mas não tinha ideia do que era. Quando cheguei na frente do bar, vi ele sentado na cadeira. Mal teve tempo de se levantar”, lembrou Santos.

“A ficha ainda não caiu e não vou trabalhar neste fim de semana. Ainda não tive tempo de chorar”, disse. 

A partir de segunda-feira, o ajudante terá de repensar a vida. “Eu vou ter de voltar à normalidade, seguir a minha vida. Perdi um companheiro e um amigo. Por mais que eu queira, infelizmente não posso mudar de casa."

‘PEDI QUE FOSSE PARA CASA’, DIZ MULHER

Minutos antes de ver o marido Jonas dos Santos Soares, de 33 anos, executado em um bar de Osasco, a mulher da vítima, Angela Maria Pereira de Souza, de 30 anos, foi até o local conversar com o marido. “Sempre que ele ficava muito tempo no bar, ia lá atrás dele. Pedia para ele ir para casa”, afirmou a dona de casa, que faz bicos de manicure para complementar a renda da família, composta por mais três filhos com idades entre 5 e 8 anos.

“Nunca gostei de deixar ele sozinho no bar. Era dia de folga dele, queria que estivesse em casa”, contou. Enquanto conversava com a reportagem, ela se deu conta de que também poderia ter morrido. “Se eu ficasse lá, teriam me assassinado também.”

Ela disse que, após a chacina, vizinhos e comerciantes da região lembraram que antes dos ataques havia “boato de toque de recolher” no entorno do bar. “As pessoas acharam que não ia acontecer nada, que era só mais uma conversa.” Sem condições de falar aos filhos que o pai havia sido morto, ela pediu que tios e tias contassem.

‘NO LUGAR ERRADO, NA HORA ERRADA’

As madrugadas do desempregado Thiago Marcos Damas, de 34 anos, eram na frente da televisão, assistindo reprises de programas de humor da Rede Globo, como Escolinha do Professor Raimundo. “Quando eu tiver de me lembrar do meu irmão, a imagem que vai ficar é a de uma pessoa alegre, que gostava de dar risada e ver coisas antigas na TV”, afirmou a irmã dele, a vendedora Ana Aparecida Adriano de Lima, de 46 anos.

Damas foi baleado no fígado e na perna em um bar na Rua Antônio Benedito Ferreira. Segundo a irmã dela, o desempregado chegou a ser levado para um hospital, “mas morreu de tanto sangrar” , com um tiro na região abdominal. “Ele foi socorrido com vida, mas não resistiu. Chegou a ser operado. Os médicos me disseram que o sangramento foi tão forte que ele não aguentou e morreu”, afirmou a irmã.

“A única explicação possível para o que aconteceu era ele estar no lugar errado e na hora errada. Ele nunca fez nada de errado na vida, mesmo se tivesse feito uma covardia, nada justificaria.”

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