Parceria do DF com Cingapura vira polêmica

O governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), foi a Cingapura no início do mês assinar um contrato para que a empresa local Jurong Consultants faça o planejamento estratégico do DF para os próximos 50 anos, projeto denominado Brasília 2060. Ontem, o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) divulgou nota oficial em repúdio ao anúncio do governo e criticou a falta de licitação ou concurso na escolha da empresa, "sobretudo diante da reconhecida expertise existente no Brasil".

FELIPE WERNECK / RIO, O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2012 | 03h05

De acordo com o IAB, o planejamento da capital não pode ser realizado de "forma açodada" por uma empresa que, segundo a nota, "desconhece a cultura nacional". "Corre-se o risco da adoção de um neocolonialismo cultural, a partir de expressões urbanísticas e arquitetônicas de outro contexto, normalmente transplantadas de países centrais", acrescentou o instituto, que pede o fim da parceria.

Para o secretário de Assuntos Estratégicos do DF, Newton Lins, há "precipitação, desinformação e equívoco" nas críticas. Segundo ele, o objetivo foi buscar referências internacionais para pensar os próximos 50 anos, mas "em nenhum momento se cogitou alterar qualquer padrão arquitetônico de Brasília". Ele afirmou que a Jurong foi escolhida por apresentar "técnica inovadora de análise territorial" e possuir "larga experiência em macrozoneamentos, com portfólio invejável de 1.700 projetos espalhados pelo mundo".

"Temos de aplicar o que dá certo no mundo. Aqui não é balão de ensaio. Ao longo de 52 anos, uma dúzia de projetos foi abandonada, todos eram frutos da inteligência nacional. Foram enterrados milhões e ninguém fez abaixo-assinado", afirmou Lins. Entre as propostas estão a criação de um centro financeiro internacional e de um polo logístico, além da construção do que o secretário chamou de cidade aeroportuária. O projeto deverá afetar sete cidades. "A essência é muito mais de crescimento e desenvolvimento econômico do que urbanístico. O mais importante é atrair investimentos. É uma empresa de consultoria e análise de gestão. As pessoas ficam assustadas porque é algo novo."

Em entrevista, o presidente do IAB, Sérgio Magalhães, disse que "não faz sentido pensar os próximos 50 anos a partir de Cingapura". Ele disse temer "valores adicionais que não estão explicitados", como a ocupação do solo. "A última experiência do gênero no País foi o Plano Doxiadis (concebido por um arquiteto grego na década de 1960, sob encomenda do então governador da Guanabara, Carlos Lacerda). Foi um fracasso que resultou no abandono da zona norte e em uma expansão rarefeita."

Indagado sobre os principais problemas urbanísticos do DF, Lins citou o crescimento desordenado em áreas periféricas e a falta de mobilidade sustentável.

A empresa de Cingapura deve receber R$ 12 milhões - o custo total ainda não foi fechado.

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