Paralisação começou timidamente e ganhou força com o interior

Cenário: Tiago Décimo

O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2012 | 03h02

Especialistas em segurança pública avaliam que o governo baiano demorou a detectar o potencial de adesão à paralisação da Polícia Militar proposta, em princípio, por um grupo de 200 PMs, de uma associação pequena, que ocuparam a Assembleia Legislativa da Bahia no dia 31.

O professor do Programa de Estudos, Pesquisas em Políticas e Gestão de Segurança Pública da Universidade Federal da Bahia, coronel Antônio Jorge Melo afirma, por exemplo, que houve menosprezo por parte do governo com a manifestação. "A condução inicial do caso foi equivocada", avalia.

O suposto descaso com a paralisação em seu início é atribuída, dentro do governo, à forma como o movimento surgiu. Capitaneado por uma associação pequena, a Associação de Policiais e Bombeiros e de seus Familiares do Estado da Bahia (Aspra), liderada por um ex-PM que causa controvérsia na corporação, Marco Prisco Caldas Machado, a paralisação foi tratada como "evento isolado" pela administração estadual.

Criada em 2009 pelo próprio Prisco, a Aspra na Bahia congrega 930 PMs e bombeiros, em um contingente de 32 mil pessoas. Tem sedes em apenas cinco cidades e não chegou a ser reconhecida como entidade de classe pelo governo. Inicialmente, foi a única a participar do movimento em Salvador.

Na capital, houve pouca adesão da PM, no começo da manifestação. Muito por causa da figura controversa de Prisco. Parte da tropa o considera um "herói" desde 2001, quando liderou a ocupação de um batalhão da PM em Salvador, na maior greve da história da categoria no Estado. Outra parte, porém, especialmente na capital, nem gosta de ouvir falar do líder.

"Ele é um maluco, um delinquente", dispara um policial que estava lotado no 8.º Batalhão da PM quando Prisco comandou sua invasão e chegou a aderir ao movimento grevista, mas desistiu. "Ele atirou contra os colegas. Por sorte, ninguém ficou ferido."

Se na capital o movimento começou aparentemente isolado, no interior do Estado, em cidades importantes como Feira de Santana e Ilhéus, a adesão à paralisação foi instantânea. Apoiados por integrantes de outras entidades, em especial a Associação de Cabos e Soldados da PM da Bahia (APPM-BA), que congrega 11 mil associados, os PMs deixaram de ir para a rua. "Há integrantes da associação parados desde o começo", admite o presidente da entidade, sargento Agnaldo Pinto. Ele diz, porém, que a APPM nunca integrou oficialmente o movimento.

As informações sobre a evolução do movimento no interior contagiaram as tropas da capital, que passaram a aderir ao movimento dois dias depois de seu início. "Havia a perspectiva da paralisação do jeito que está sendo, porque os colegas estão insatisfeitos com o governo há muito tempo", afirma o soldado Ivan Carlos Leite, um dos líderes do movimento grevista após a prisão de Prisco. "Mas temos de agradecer aos policiais do interior, que foram os principais responsáveis por o movimento ter alcançado a projeção que teve."

O movimento ganhou força com a invasão da Assembleia Legislativa. No entanto, a divulgação de escutas pelo Jornal Nacional, que comprometeram os principais líderes com ação de vandalismo, incluindo Prisco, causaram um refluxo no movimento, que já é nítido nas ruas - onde o apoio popular é zero.

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