SERGIO CASTRO/ESTADÃO
SERGIO CASTRO/ESTADÃO

Paraitinga vive carnaval da 'restauração'

Primeira folia depois da reconstrução total da Igreja Matriz deve receber 150 mil pessoas

Paulo Saldaña, O Estado de S. Paulo

14 Fevereiro 2015 | 03h00

SÃO LUIZ DO PARAITINGA - Há cinco anos, uma enchente histórica devastou o centro histórico de São Luiz do Paraitinga e praticamente anulou naquele ano a festa do carnaval, uma das mais emblemáticas do interior paulista. Mas, mesmo entre dezenas de prédios centenários destruídos, a festa não morreu e chegou a 2015 com vida nova. Este ano será a primeira celebração depois de a Igreja da Matriz, a principal da cidade, ter sido totalmente reconstruída, restaurando o cenário que define o carnaval no município.

A imagem do templo ruindo com a força das águas no ano novo de 2011 foi chocante. O estrago ainda pode ser visto em alguns casarões no centro histórico, que não passaram por reforma, mas a simbólica igreja teve sua restauração finalizada em maio de 2014.

O artista plástico Benito Campos, de 62 anos, criador do tradicional bloco Juca Teles, acredita que, apesar do incidente, o carnaval acabou ganhando força depois da enchente. “Foi triste ver a minha cidade ser arrasada. Mas vários municípios do interior quiseram levar o carnaval de Paraitinga para lá”, conta ele, entre os bonecos, máscaras e estandartes de seu ateliê.

A expectativa é de um público de até 150 mil pessoas nos quatro dias de carnaval - o município tem uma população de 11 mil. Os primeiros blocos, como o Rei Canário, já saíram ontem à noite. Mas é hoje que o Juca Teles leva às ruas a “incitação à farra e à folia”, o grito poético de carnaval entoado por Campos.

Um estandarte expõe a filosofia do bloco: “Como viver sentindo a passagem do tempo”. “É a reflexão do caipira filosófico. Quando se olha o céu, vemos nossa insignificância. Do céu e inferno ninguém escapa, então vamos cair na gandaia.”

Às 12 horas, “em pleno sol que arrebenta mamona”, o boneco de Juca Teles, de 12 quilos, desfila ao lado de sua musa inspiradora, Nhá Fabiana, de cabelo esvoaçante laranja à la Rita Lee. Juca Teles do Sertão das Cotias era o codinome de um personagem histórico da cidade, chamado Benedito de Souza Pinto, que viveu entre 1888 e 1962. Foi informante do escritor Alceu Maynard de Araujo sobre folclore e tradição regional. Sua figura e importância foram resgatadas por Campos em 1985. “Tiravam-no de maluco, mas ele colaborou com uma importante documentação da história e faz parte da identidade de Paraitinga”, diz Campos, que vai levar seu bloco a outras três cidades.

Música. Na semana passada, grupos do carnaval da cidade estiveram em São Paulo, no Centro Cultural Banco do Brasil, para um desfile. Outros blocos da cidade foram se apresentar em Ilhabela, no litoral norte. 

O músico Paulo Baroni, de 54 anos, que comanda a banda Loukomotiva Kabereka, esteve no litoral para três apresentações. No carnaval de Paraitinga desde 1981, Baroni faz dois shows neste feriado, sempre no palco do centro de eventos, às 16h30 de amanhã e à meia noite de segunda. “Esse último vai ser o repertório de risco”, brinca ele, que tem composições com a banda Paranga, grupo de músicos locais de sucesso nos anos 1980 - e que também se apresenta na terça, às 15 horas. 

Entre os 37 blocos e bandas previstos, outros muito esperados são o Pé na Cova (amanhã, às 23h) e Bloco do Barbosa (terça, às 15h). Paraitinga tem um carnaval autoral e as bandas só tocam as músicas da região, cujo repertório é estimado em 4 mil canções, como explica Baroni. 

Os estudantes Wellington Ismail e Jean Lucas, ambos de 21 anos, ganharam o último Festival de Marchinhas, em janeiro. A partir de hoje, entretanto, o plano da dupla é só curtir a festa. “Aprendi a andar correndo atrás de blocos”, diz Lucas. “O bom é que não precisa fazer nada para arranjar namorada”, completa o amigo. 

Apesar da empolgação dos jovens, a data divide os comerciantes. A bagunça assusta. “Para mim, o melhor é na quarta. Porque no carnaval o povo só vem atrás de latinha de cerveja e salgadinho”, diz Alice Nakao, do restaurante Sol Nascente. “Na quarta é que o pessoal recarrega as baterias e vem comer.”

O presidente da Associação Comercial, José Roberto da Silva, diz que a cidade não tem estrutura para o carnaval. “O boom do carnaval foi em 2009 e caiu depois da enchente. A cidade não é preparada para receber tanta gente, a data traz preocupação.” 

Para quem a venda de cerveja e bebidas é o principal mercado, a expectativa da chegada de 150 mil pessoas faz os olhos brilharem. “É a época mais esperada do ano, com lucro quatro vezes maior do que qualquer outra”, diz Ramon Barbosa Leite, de 42 anos, dono de um bar na praça central. 

Em tempos de chuvas fracas, o medo de uma nova enchente passa longe. Mas o Rio Paraitinga está cheio e o contrário - uma falta de água - também não é esperado. “Água tem para sustentar bastante gente”, diz Silva.

Mais conteúdo sobre:
Carnaval,São Luiz do Paraitinga

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.