Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Paraisópolis: Jovem diz ter ficado encurralada e relata agressão de policial

Mãe conta que garota de 17 anos teve de levar pontos na testa e no queixo após ser ferida por garrafa e cassetete

Paula Felix, Marco Antônio Carvalho e Cecília do Lago, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2019 | 21h26

SÃO PAULO - A mãe de uma jovem de 17 anos relatou ao Estado que a adolescente foi agredida por um policial militar durante o baile funk em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. A festa terminou com nove pessoas mortas. “Ela levou uma garrafada na região da cabeça. Levou pontos no centro da testa, em volta do olho e no queixo. Deve ter levado uns 50 pontos. Ela afirma que foi agredida por um policial e está com marcas de cassetete nas costas”, disse a dona de casa, de 36 anos, que pediu anonimato, na noite deste domingo, 1º.

Ela conta que não sabia que a filha estava no local, mas descobriu ainda na madrugada, quando recebeu uma ligação do posto de saúde de Paraisópolis. A família mora em Pirituba, na zona norte. Segundo o relato da garota, os participantes do baile teriam ficado encurralados durante a ação policial. “Ela já tinha ido lá outras vezes, escondida. Minha filha relata que estava acontecendo o baile e os policiais fecharam os dois lados. Eram mais de duas viaturas de cada lado. Tinha uma viela e vieram os policiais, cercaram entrada e saída. No desespero, não tinha para onde correr.”

A jovem teria sido agredida ao tentar ajudar outra garota, que também estaria sendo agredida por um PM. “Ela saiu de perto do namorado e, quando foi levantar a menina, o policial ‘tacou’ a garrafa na cara dela. Ela ficou internada 12 horas porque fez tomografia do crânio para ver se não tinha sangramento ou fratura. Quem sobreviveu nasceu de novo.”

Pânico

O dono de um bar na comunidade, que também não quis ser identificado, disse que o baile ocupava de três a quatro quarteirões. Segundo ele, os PMs apareceram uma vez e logo depois voltaram disparando balas de borracha e bombas de gás. Ele relatou não ter visto a perseguição descrita pela PM. 

Ao ver a confusão, ele baixou a porta e acolheu oito pessoas que estavam com um paredão de som na frente do seu bar. Desligaram a luz e ficaram em silêncio por algumas horas. Saíram só quando o dia já estava claro.

O público que frequenta o bar aos sábados tem perfil diferente do que vai ao local nos outros dias. Pedreiros, pintores e operários dão lugar a jovens com paredões de som que se proliferam em dia de baile. 

O baile onde houve o tumulto é o da 17, um dos maiores da região, referência a um antigo comerciante que deu início a uma festa há cerca de dez anos. A festa mudou de dono, mas prosperou e, aos sábados, atrai milhares em uma mistura com bailes menores e simultâneos. 

Ao Estado, o dono do bar disse que não é incomum a presença policial na área. “Às vezes são educados, chegam e pedem para fechar. Em outras, lançam bomba aqui dentro e batem nos frequentadores”, relatou. Procurada, a Secretaria de Segurança Pública disse que, por ser domingo, não conseguiria apurar e se manifestar sobre relatos de violências ocorridas em outros dias. 

Polícia relata disparo de suspeitos

Conforme a versão oficial, seis PMs estavam na Avenida Hebe Camargo, perto da comunidade, quando uma dupla passou de moto por volta das 5h30 da manhã e atirou contra os policiais. Conforme a PM, a dupla fugiu em direção à festa e foi perseguida. Ao chegar ao baile, os policiais dizem que começou o tumulto e os suspeitos se esconderam na multidão. Isso teria feito com que participantes da festa, em pânico, tropeçassem e se machucassem gravemente. 

“Usaram as pessoas como escudos humanos para tentar impedir a ação da polícia”, afirmou o porta-voz da PM, tenente-coronel Emerson Massera. 

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